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2-Filhos

2 Filhos

Capítulos 1

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Dois filhos I. Luizão parou na porta entreaberta do escritório quando ouviu a voz do irmão. Não era a voz de sempre — aquela de oi-pai-tudo-bom-to-só-passando-pra-pegar-o-carro. Era outra coisa. Tinha uma firmeza estudada, um peso de quem ensaiou no espelho. — Pai, preciso conversar com o senhor sobre uma oportunidade. Coisa séria. Encostou o ombro no batente. Podia entrar, claro. Ninguém ia mandar ele sair. Mas alguma coisa no ar daquela sala — cheiro de couro inglês, madeira encerada, café requentado — pedia silêncio. Ficou. — Que oportunidade, Gabriel? Seu Roberto não levantou os olhos da tela do notebook. Luizão conhecia aquele tom. Era o tom de quem já sabia que ia dizer sim, mas queria ver o filho suar um pouco antes. — Blockchain aplicado ao agro. NFT de gado rastreável, crédito de carbono, tokenização, mercado chinês e europeu de olho. A gente digitaliza a cadeia inteira, pai. Do bezerro ao frigorífico. Rastreabilidade total, transparência, sustentabilidade certificada. Os caras de fora pagam prêmio por isso. O pai finalmente fechou o notebook. Cruzou os dedos sobre a mesa, aquele gesto que fazia antes de uma grande decisão. — Quanto? — Quarenta e dois milhões. Vinte do senhor, vinte e dois eu levanto com fundo. Já tenho três interessados. Mas preciso do senhor pra abrir a porta, pai. Seu nome vale mais que qualquer pitch deck. Silêncio. Luizão sentiu o suor descer pelas costas. Tinha acabado de passar seis horas no sol, conferindo cerca, lidando com um peão que queria adiantar férias, resolvendo a merda de uma bomba de irrigação que pifou de novo. Estava com a camisa grudada, bota suja de barro seco. E o Gabriel ali, de tênis branco sem um risquinho, calça cáqui sem um vinco errado, falando de blockchain como se fosse receita de bolo. — Você tem dezenove anos, Gabriel. — Vinte em março. E tenho um sócio de trinta e oito, ex-Goldman, o cara montou duas exits. Eu sei que é arriscado, pai. Mas o senhor começou com quanto? Com vinte e três e um caminhão emprestado. To pedindo uma chance. Uma só. Seu Roberto levantou. Foi até a janela. Ficou olhando os pastos que se estendiam até onde a vista alcançava. Luizão conhecia aquele movimento também. Era o movimento de quem já tinha decidido, mas precisava fazer suspense. — Vinte milhões. Quinze por dentro da empresa, cinco pro seu capital de giro. Mas eu entro com trinta por cento do board. Relatório mensal. Não é presente. É investimento. Gabriel levantou num pulo, abraçou o pai com aquele entusiasmo que sempre funcionava, sempre amolecia o velho. — Pai, o senhor não vai se arrepender. Juro. Vou fazer essa porra valer a pena. Desculpa. Vou fazer isso valer a pena. — Vê se não some de novo, Gabriel. — Vou vir mais, pai. Prometo. Luizão se afastou da porta antes que o Gabriel saísse. Entrou no banheiro de serviço, fechou a porta, sentou na tampa do vaso. Ficou ali, olhando as próprias mãos sujas, unhas imundas, calos nos dedos. Quarenta e dois milhões. O pai tinha soltado vinte milhões como quem dá mesada. Quando Luizão pediu duzentos mil pra reformar a casa da fazenda — a casa onde ele morava, sozinho, há dez anos — o pai tinha feito uma planilha, pedido três orçamentos, discutido cada item durante duas semanas. No fim, liberou cento e quarenta mil, e disse que o resto Luizão tirava do próprio bônus. Não teve bônus naquele ano. Tinha tido geada em junho, e geada não era culpa de ninguém, mas alguém tinha que pagar. II. A Exame saiu em agosto de 2024. Gabriel na capa, braços cruzados, sorriso de quem tinha encontrado petróleo no quintal. "O cowboy do blockchain: como um jovem de 20 anos quer revolucionar o agro brasileiro." Luizão comprou a revista no posto de gasolina, na volta de Ribeirão. Leu no carro, parado no acostamento, com o ar-condicionado ligado porque não aguentava mais o calor. "BeefChain já tem valuation de 180 milhões e promete conectar pecuaristas brasileiros aos mercados mais exigentes do mundo. 'A China quer transparência, a Europa quer carbono neutro. A gente entrega os dois', diz Gabriel Menezes, CEO e fundador da startup que tem atraído atenção de fundos nacionais e internacionais, entre eles o Verde Agro Ventures e o Terra Magna Capital." Tinha uma foto do Gabriel num coworking chique em Pinheiros, mexendo num notebook, cercado de gente jovem, bonita, sorridente. Todo mundo de tênis importado e moletom de startup. Parecia comercial de banco. Guardou a revista no porta-luvas. Ligou pro pai. — Pai, viu a matéria? — Vi. Seu irmão mandou por WhatsApp. Ficou bonita. — O senhor vai na festa que ele tá fazendo? — Que festa? — Aniversário da empresa. Sexta, em São Paulo. Ele não te convidou? Silêncio do outro lado. — Ele falou que era coisa pequena. Só a equipe. — É num rooftop no Itaim, pai. Tem duzentas pessoas confirmadas no Instagram dele. — Você vai? — Não fui convidado. Seu Roberto pigarreou. — Luizão, você sabe que seu irmão… — Eu sei, pai. Eu sei. Desligou antes do pai terminar a frase. Não precisava ouvir de novo. Seu irmão é diferente. Seu irmão tem o jeito dele. Seu irmão precisa do espaço dele. Conhecia todas as variações. Tinha ouvido a vida inteira. Naquela sexta, jantou sozinho na cozinha da fazenda. Macarrão instantâneo, mortadela, duas cervejas quentes. Abriu o Instagram. Não ia olhar. Jurou pra si mesmo que não ia olhar. Olhou. Stories do Gabriel: champanhe sendo estourada, gente linda dançando, luzes coloridas, vista da cidade acesa lá embaixo. Uma loira de vestido dourado beijando o Gabriel na boca, segurando uma taça. Legenda: "Um ano de BeefChain. Só começamos. 🚀🥩⛓️" Fechou o aplicativo. Foi dormir às nove da noite porque tinha que acordar às cinco. Vaca não tirava folga. Bomba de irrigação não se consertava sozinha. Peão não pagava o próprio salário. III. Em março de 2025, o Paraguai anunciou que ia vender carne e soja pra China com desconto de quarenta por cento sobre o preço brasileiro. Dumping escancarado, mas a China não ligava. Estava comprando por motivo político, não econômico. O Brasil tinha votado contra eles em alguma coisa na ONU, e agora pagava o preço. Em abril, descobriram que setenta por cento dos NFTs da BeefChain não correspondiam a gado real. Algum analista de fundo fez auditoria cruzada e percebeu que tinha boi sendo vendido três vezes na blockchain. Boi fantasma. Startup de criptomoeda travestida de agro. Em maio, a BeefChain virou pó. Gabriel tentou segurar. Fez lives explicando que era "erro de integração sistêmica", que iam "reparar todos os investidores", que a "tecnologia era sólida, só precisava de ajustes". Mas o estrago estava feito. Os fundos pediram o dinheiro de volta. Não tinha dinheiro pra devolver. Tinha cobertura no Itaim, BMW no estacionamento, viagens pra Punta del Este, rooftop todo santo mês. Tinha nota fiscal de vinte e oito mil reais em bebida numa festa só. Tinha, também, outro problema. O áudio vazou numa quinta-feira. Alguém gravou o Gabriel falando no banheiro do Insper, durante algum evento de ex-alunos. Voz alta, confiante, voz de quem tinha bebido demais e achava que estava entre amigos. "Cara, peguei a mina do Marcão e ainda faturei cento e oitenta K naquele mês. Ele nem desconfiou. A mina me ligava chorando, dizendo que se sentia mal, aí eu falava: relaxa, gata, cê não tem culpa de eu ser melhor que seu namorado. E era verdade, pô. O moleque é um bunda-mole. Ela me agradeceu depois." Risadas. Barulho de descarga. Fim do áudio. O áudio rodou todos os grupos de WhatsApp da faculdade. Rodou LinkedIn. Rodou o X. Rodou até grupo de mãe de aluno. A noiva do Marcão — porque era noiva, não namorada, casamento marcado pra julho — postou prints de conversas, fotos, datas. Dois anos de traição documentada. Gabriel tinha gravado OnlyFans com ela e outra menina. Tinha lucrado quase duzentos mil em três meses. Elas achavam que era projeto artístico, expressão da sexualidade, empoderamento. Era esquema de monetização. O Marcão tentou se matar. Tomou cartela inteira de remédio, foi parar no Einstein, ficou cinco dias na UTI. Não morreu, mas o estrago estava feito. Gabriel desapareceu. Desligou o celular, sumiu das redes, evaporou. Seu Roberto recebeu ligação de advogado, de jornalista, de pai de amigo e de fundo de investimento. Todo mundo querendo saber onde estava o menino. — Eu não sei — seu Roberto repetia, e era verdade. Luizão também não sabia. Mas diferente do pai, não estava procurando. IV. Cinco semanas no fundo A primeira coisa que Gabriel vendeu foi o iPhone. Treze Pro Max, mil e duzentos reais na mão de um moleque na Galeria do Rock. O moleque pensou que era roubado. Não era, mas parecia. Gabriel não discutiu o preço. Com o dinheiro pagou duas semanas de hostel em Santa Cecília. Quarto compartilhado com cinco pessoas. Beliches de ferro que rangiam a noite inteira. Cheiro de mofo, cheiro de pé, cheiro de comida requentada que alguém esquecia no micro-ondas. Na segunda semana, roubaram a mochila dele. Perdeu documento, roupa limpa, carregador do notebook. Sobrou o notebook e a roupa do corpo. Tentou vender o notebook. MacBook Pro, último modelo, dezoito mil à vista na loja. Ofereceram dois mil e quinhentos. Não vendeu. Ainda achava que ia conseguir alguma coisa com aquilo. Algum freela, algum bico, alguma chance. Não conseguiu nada. Os ex-amigos não atendiam. Os que atendiam desligavam quando ouviam a voz. O Pedro, que tinha sido padrinho da BeefChain, que tinha postado foto com ele na Forbes, bloqueou o número. A Júlia, que tinha transado com ele três vezes na mesma semana em junho, mandou um áudio: "Gabriel, meu namorado tá puto. Para de me procurar. Sério. Eu não posso me envolver com isso." Na terceira semana, achou um trampo. Barraca de pastel na Augusta, das onze da noite às cinco da manhã. Cem reais a diária. O trabalho era lavar panela, limpar chapa, carregar botijão. O dono era um coreano que não falava português direito e pagava em dinheiro, sem recibo, sem nada. Gabriel trabalhava de chinelo, porque o tênis branco tinha rasgado e não tinha dinheiro pra comprar outro. No segundo dia, cortou a mão na chapa. Queimadura feia, bolha do tamanho de uma moeda. O coreano mandou lavar com água fria e voltar pro trabalho. Gabriel voltou. Precisava dos cem reais. No quinto dia, o coreano disse que não precisava mais dele. Não deu motivo. Pagou os quinhentos reais, disse obrigado, tchau. Gabriel saiu às cinco da manhã, com quinhentos reais no bolso e nenhum lugar pra ir. Dormiu na marquise da Catedral da Sé. Tinha pelo menos vinte pessoas ali. Gente velha, gente nova, gente que cheirava crack, gente que só queria um lugar seco pra deitar. Gabriel ficou acordado a noite inteira, segurando a mochila contra o peito, ouvindo barulho de sirene, gente gritando, gente chorando. De manhã, uma mulher de uns cinquenta anos ofereceu pão. Gabriel comeu. Estava duro, velho, mas Gabriel comeu tudo. Na quarta semana, os quinhentos tinham virado cento e vinte. Comia uma vez por dia. Marmitex de resto que o pessoal deixava nas mesas do Poupatempo. Pão que a igreja distribuía na quinta de noite. Banana que pegava no Mercadão, das que estavam pretas demais pra vender. Emagreceu oito quilos. A calça cáqui caía da cintura. Amarrou com um pedaço de corda que achou no lixo. Tentou ligar pro pai. Três vezes. Das três, desligou antes de completar. Não sabia o que ia dizer. "Oi, pai, eu fodi tudo, me ajuda?" Não conseguia. Alguma coisa dentro dele ainda resistia. Orgulho, vergonha, medo. Talvez tudo junto. Na quinta semana, choveu. Chuva fria de setembro, aquela que enche bueiro, alaga rua, molha até o osso. Gabriel estava dormindo debaixo do Minhocão quando começou. Acordou encharcado, tremendo, com a mochila pingando. O notebook tinha molhado. Não ligava mais. Cinco mil reais de máquina viraram peso morto. Jogou o notebook no lixo. Ficou ali, parado na chuva, olhando a água descer pela sarjeta. Carros passavam, levantando onda, molhando mais ainda. Ninguém parava. Ninguém olhava. Gabriel era invisível. Era lixo. Era nada. Foi andando. Não sabia pra onde. Só andava. Desceu a Consolação, entrou na Paulista, subiu até o Paraíso. Parou num orelhão. Ficou olhando o telefone, aqueles botões velhos, sujos, pixados. Tinha uma frase escrita com caneta: "Deus não desiste de você." Gabriel discou. Cinco toques. Seis. Sete. Alguém atendeu. — Pai — Gabriel disse, e a voz saiu quebrada. — Pai, eu preciso voltar. V. Gabriel pegou o ônibus na Barra Funda às dez da noite. Rodoviária cheia, gente dormindo no chão, criança chorando, cheiro de gordura e suor. Comprou passagem pro último horário, o mais barato. Cento e quarenta reais. Sobrou dezessete reais no bolso. O ônibus demorou oito horas. Parou em Campinas, Limeira, Pirassununga. Gabriel não dormiu. Ficou olhando a estrada escura, as luzes dos postes passando, o reflexo do próprio rosto no vidro. Estava diferente. Mais magro, mais velho, mais destruído. Parecia ter trinta anos, não vinte. Chegou em Ribeirão às cinco e quarenta da manhã. Rodoviária vazia, fria, silenciosa. Desceu do ônibus com a mochila nas costas, roupa imunda, barba por fazer. Foi até o ponto do circular. Esperou quarenta minutos até o primeiro ônibus passar. Desceu no trevo. Dali até a fazenda eram dezessete quilômetros. Estrada de terra vermelha, poeira, sol que já começava a apertar mesmo às sete da manhã. Gabriel começou a andar. Passou uma hora. Duas. O sol subia, queimava, torrava. Gabriel tirou a camiseta, amarrou na cabeça, tentou se proteger. Não adiantou. A pele do ombro ficou vermelha, depois rosa, depois começou a arder. O tênis rasgado entrava terra. Bolha no calcanhar estourou no segundo quilômetro. Sangue misturado com poeira. Gabriel continuou andando. Passou caminhonete na estrada. Duas, três. Ninguém parou. Gabriel não acenou. Só andava. Um pé na frente do outro. Respira. Anda. Respira. Anda. No décimo quilômetro, sentou na beira da estrada. Bebeu água de uma poça, porque não tinha mais nada. Água suja, barrenta, com gosto de ferrugem. Vomitou. Ficou ali, de quatro, vomitando água e bile, até não ter mais nada pra sair. Levantou. Continuou. Quando chegou na porteira da fazenda, era meio-dia. O sol estava no ponto mais alto, aquele sol de setembro que derrete asfalto. Gabriel parou. Olhou a casa lá na frente, trezentos metros de distância. Parecia uma milha. Foi andando. Mancando. Cada passo era uma faca no pé. A mochila pesava mil quilos. O corpo inteiro tremia. Luizão estava consertando cerca no pasto norte quando viu o vulto. Parou. Olhou melhor. Tinha alguém vindo pela estrada, cambaleando. Bêbado, talvez. Mendigo. Alguém perdido. Pegou o alicate, desceu do mourão. Foi caminhando até a casa. O vulto continuava vindo. Devagar. Muito devagar. Quando Luizão chegou perto, percebeu. Era o Gabriel. Imundo. Fedendo. Pé sangrando. Roupa rasgada. Poeira até o joelho. Olho fundo, pele queimada, lábio rachado. Gabriel parou a três metros de distância. — Oi, Luizão. Luizão não respondeu. Ficou olhando. Processando. Tentando encaixar aquele destroço humano com a imagem do irmão que ele conhecia. — O pai tá? — Gabriel perguntou. — Tá na cidade. Volta de tarde. Gabriel balançou a cabeça. Parecia que ia desmoronar, mas segurou. — Posso esperar aqui? — Pode. Entraram na casa. Luizão ofereceu café, pão de queijo que a Dona Maria tinha trazido no sábado. Gabriel comeu três, devagar, como se cada mordida doesse. Ficaram em silêncio. O relógio da cozinha marcava o tempo com aquele tique-taque irritante que Luizão já nem ouvia mais. — Cê tá morando aonde? — perguntou, porque o silêncio estava pesado demais. — Tava num albergue no Brás. Quinze real a diária. Dividindo quarto com seis pessoas. — Comendo o quê? — Resto. Marmitex que o pessoal deixa. Tem uma igreja que dá sopa de noite. Algo subiu na garganta de Luizão. Não era pena. Era algo mais complicado. Era raiva e pena junto, tudo misturado. — Você tem ideia da merda que aprontou? Gabriel olhou pra baixo. — Eu não sabia que o Marcão ia... não sabia que ele ia tentar fazer aquilo. — Cê transou com a noiva do cara, Gabriel. Gravou vídeo pornô com ela. Lucrou com isso. E ainda ficou se gabando. — Eu tava bêbado. — Todo mundo fica bêbado. Nem todo mundo vira um filho da puta. Gabriel não respondeu. Ficou olhando as próprias mãos. Mãos limpas, macias, mãos que nunca tinham segurado cerca, nunca tinham lidado com boi, nunca tinham carregado saco de ração. — O pai perdeu dinheiro? — Perdeu. Não os vinte milhões, porque ele tinha garantia. Mas uns cinco, seis. Fora a vergonha. Você tem ideia de quantas vezes eu ouvi piadinha sobre "boi de blockchain" nos últimos meses? — Desculpa. — Desculpa o caralho, Gabriel. Desculpa o caralho. Levantou, foi até a pia, jogou água no rosto. Respirou fundo. Não ia explodir agora. Não ia dar esse gostinho pro irmão. Seu Roberto chegou às três da tarde. Ouviram o barulho da caminhonete antes de ver. Gabriel se levantou, nervoso, passando a mão no cabelo, consertando a camisa amarrotada. Parecia criança esperando bronca. A porta abriu. Seu Roberto parou no batente quando viu Gabriel. E então fez uma coisa que Luizão nunca, nunca tinha visto o pai fazer. Correu. Atravessou a sala, abraçou Gabriel, apertou forte, segurou a cabeça do filho contra o peito. — Graças a Deus. Graças a Deus, meu filho. Gabriel desabou. Começou a chorar alto, aquele choro feio, sem controle, choro de quem tinha segurado por meses. Seu Roberto chorou junto, segurando o filho como se ele fosse desaparecer de novo. Luizão ficou encostado na parede da cozinha, olhando a cena. A mão dele tremeu. Fechou o punho. — Você tá bem? Tá machucado? — seu Roberto perguntava, segurando o rosto do Gabriel, olhando nos olhos do filho como se procurasse feridas. — To bem, pai. To bem. — Você comeu? Quando foi a última vez que você comeu direito? — Não lembro. — Luizão, liga pra Dona Maria. Fala pra ela preparar aquela costela que seu irmão gosta. Farofa, vinagrete, aquela sobremesa de maracujá. Fala que é urgente. Luizão não se mexeu. — Luizão. Você ouviu? — Ouvi. — Então liga. Pegou o celular. Discou. Dona Maria atendeu no segundo toque. — Dona Maria, o Gabriel voltou. O pai quer que a senhora prepare um jantar. Costela, farofa, vinagrete, sobremesa. — Nossa, que bom que o menino voltou! Claro, Luizão. Daqui duas horas tá pronto. Pode avisar seu Roberto. Desligou. Seu Roberto estava levando Gabriel pro quarto de hóspedes, aquele que tinha cama boa, ar-condicionado, banheiro privativo. O quarto que nunca tinha sido de Luizão, mesmo morando ali havia dez anos. Ficava no quarto dos fundos, onde era depósito antes. Cama de solteiro, ventilador, banheiro compartilhado com a área de serviço. — Luizão, prepara um banho pro seu irmão. Pega toalha limpa. Empresta uma roupa sua pra ele. Vocês têm o mesmo tamanho. Não tinham. Gabriel era mais alto, mais magro. Mas Luizão não corrigiu. Foi buscar uma toalha. Preparou o chuveiro. Separou uma muda de roupa limpa: calça jeans, camiseta branca, cueca nova, ainda na embalagem. Deixou tudo dobrado na cama. Quando voltou pra cozinha, seu Roberto estava no telefone. — ...não, ele tá bem. Voltou. Tá em casa... é, eu sei. Foi difícil pra todo mundo. Mas agora acabou. Ele tá em casa... tá bom. Eu ligo mais tarde. Desligou. Olhou pro Luizão. — Pode mandar de volta. Silêncio. — Luizão… — Fala, pai. — Eu sei que você… — O senhor não sabe nada, pai. Seu Roberto fechou a cara. — Não fala assim comigo. — Desculpa. O senhor sabe tudo. — Luizão, pelo amor de Deus. Seu irmão quase morreu. Ele estava em um albergue, comendo resto. Você quer que eu faça o quê? — Nada, pai. O senhor tá fazendo o certo. Como sempre. Saiu antes que o pai respondesse. Foi terminar o trabalho na cerca. Tinha mais três horas de sol. Dava tempo de fechar o pasto norte inteiro. VI. O jantar ficou pronto às sete. Dona Maria fez questão de servir pessoalmente, emocionada, abraçando Gabriel, dizendo que ele estava tão magro, coitadinho, precisava comer direito. Pôs a mesa na varanda, aquela com vista pro pasto, com a toalha de linho que só usavam em aniversário. Seu Roberto abriu vinho. Vinho bom, importado, daqueles que ele guardava pra ocasião especial. Serviu pro Gabriel, depois pra si mesmo. Ofereceu pro Luizão. — Não, obrigado. — Você não bebe mais? — Tô cansado. Vinho me dá sono. — Então toma refrigerante. — To bem com água. Começaram a comer. Seu Roberto fazia perguntas pro Gabriel. Como estava, como se sentia, o que tinha passado, se alguém tinha feito mal pra ele. Gabriel respondia com monossílabos, entre uma garfada e outra, comendo como se não quisesse parar nunca mais. — Gabriel, eu falei com o Raul. Você lembra do Raul, da DuCão? Ele disse que tem uma vaga no comercial. Não é nada de executivo, é analista júnior, mas é um começo. Você pode ficar aqui, economizar dinheiro, reconstruir sua vida devagar. Gabriel balançou a cabeça, mastigando. — Outra coisa. Eu conversei com aquele padre novo, o padre Augusto. Ele é psicólogo também. Acho que seria bom para você conversar com ele. Sem pressão, sem julgamento. Só pra você botar pra fora o que tá sentindo. — Tá, pai. — E eu tava pensando... a gente podia fazer uma viagem. Nós três. Você, eu e Luizão. Uns dias em Caldas Novas, ou em Bonito. Lugar tranquilo, pra gente se reconectar como família. Luiz pousou o garfo. — Pai, eu não posso viajar agora. Tem a vacinação do gado, tem a… — A vacinação pode esperar. — Não pode. Tem prazo. — Então a gente vai em outubro. — Outubro é fechamento de safra. — Novembro. — Novembro tem feira. Seu Roberto olhou pro filho mais velho, irritado. — Luizão, cê arruma desculpa pra tudo. Quando foi a última vez que você tirou férias? — Não lembro. — Pois é. Você precisa descansar. Tá ficando amargo. — Amargo. — É. Amargo. Fechado. Cê não sorri mais, não conversa mais. Parece que tá sempre de mal com a vida. Luiz respirou fundo. — Pai, eu trabalho doze horas por dia, sete dias por semana, há dez anos. Gerencio trinta e dois funcionários. Cuido de dois mil e quatrocentos hectares. Acordo às cinco da manhã e durmo às dez da noite. Quando foi a última vez que o senhor perguntou como eu tava? Quando foi a última vez que o senhor disse "bom trabalho, Luizão"? Quando? Seu Roberto ficou vermelho. — Eu pago seu salário todo mês. Isso não é reconhecimento? — É o mínimo, pai. O mínimo que o senhor faz por qualquer funcionário. — Você não é funcionário. Você é meu filho. — Engraçado. Nunca me senti assim. Gabriel estava olhando pro prato, quieto, mastigando devagar. — Luizão, eu não vim aqui pra ouvir isso. Seu irmão acabou de voltar. Você não pode ter um pingo de compaixão? — Compaixão? — Luizão riu, um riso seco, sem humor. — Pai, o Gabriel torrou vinte milhões do seu dinheiro. Humilhou a família inteira. Quase matou um cara. E o senhor tá abrindo vinho importado, fazendo festa, oferecendo emprego. Quando eu pedi pra fazer faculdade de veterinária, o senhor disse que não tinha dinheiro, que alguém precisava tocar a fazenda, que estudo era luxo. Eu tinha dezessete anos. Dezessete. E aceitei. Larguei tudo. Fiquei aqui. E nunca, nunca, o senhor abriu uma garrafa de vinho pra mim. — Você escolheu ficar. — EU NÃO ESCOLHI PORRA NENHUMA! O grito ecoou na varanda. Dona Maria parou na porta da cozinha, assustada. Seu Roberto levantou da cadeira. — Não grita comigo. — EU VOU GRITAR SIM! — Luizão estava de pé agora, tremendo. — O senhor me prendeu aqui! Disse que era minha obrigação, que família é isso, que homem não abandona responsabilidade. Eu tinha dezessete anos, pai! DEZESSETE! E eu acreditei. Eu fiquei. Nunca fui à festa de formatura. Nunca tive namorada séria, porque que mulher quer ficar com cara que mora em fazenda, acorda de madrugada, cheira bosta de vaca? Nunca viajei. Nunca tive um aniversário, uma festa, uma porra de um parabéns cantado. NADA! E o Gabriel? O Gabriel foi pra São Paulo, pro Insper, gastou uma fortuna em mensalidade, morou em apartamento de três milhões, andou de BMW, comeu em restaurante caro, transou com meia São Paulo, torrou mais vinte milhões, humilhou a gente inteira, e o senhor tá aqui, abrindo vinho, preparando quarto, oferecendo emprego, querendo fazer viagem em família! Lágrimas desciam pelo rosto dele agora, mas não se importava. — Onde é que tava o vinho quando eu terminei o curso técnico? Onde estava a viagem quando eu salvei a safra da geada de 2019? Onde estava o "bom trabalho, filho" quando eu negociei o contrato novo com o frigorífico e economizei meio milhão pro senhor? Não tinha. Nunca teve. Porque eu sou o filho que ficou. E filho que fica não merece festa. Filho que fica é obrigação. É função. É uma peça de engrenagem. O Gabriel é seu filho. Eu sou seu empregado. Seu Roberto estava pálido. — Luizão… não é assim... — É assim… sim, pai. Sempre foi. E o pior é que eu engoli. Durante dez anos, engoli. Fingi que não doía. Fingi que não importava. Mas importa, pai. Importa pra caralho. Virou pro Gabriel. — E você. Você sempre soube. Sempre soube que era o queridinho. O especial. O bonito. O inteligente. E usou isso. Usou até não poder mais. E agora voltou, com o rabo entre as pernas, achando que um pedido de desculpas ia consertar tudo. Não conserta. Não conserta nada. Gabriel estava com os olhos cheios de lágrimas. — Luizão… eu sinto muito… eu não sabia que você… — Você sabia. Você sempre soube. Você só não ligou. Jogou o guardanapo na mesa, saiu da varanda, entrou na caminhonete, ligou o motor, desceu a estrada de terra levantando nuvem de poeira vermelha. Foi dirigindo sem rumo. Passou por Ribeirão, entrou na rodovia, foi até Franca, voltou, parou num posto às onze da noite, tomou café aguado, ficou olhando a estrada vazia. O celular tocou dezessete vezes. Era o pai. Depois Dona Maria. Depois o Gabriel. Não atendeu nenhum. Voltou pra fazenda às duas da manhã. A casa estava acesa. Seu Roberto estava sentado na varanda, esperando, olhos vermelhos, como se não tivesse pregado o olho desde aquela noite. Desceu da caminhonete, devagar. Estava exausto. Exausto de um jeito que dormir não ia resolver. — Luizão. — Pai. — Vem aqui. Subiu na varanda. Sentou na cadeira ao lado do pai. Ficaram em silêncio, olhando a escuridão do pasto, ouvindo grilo, vento, gado ruminando lá longe. — Você tem razão — seu Roberto disse, finalmente, voz baixa. Luiz não respondeu. — Eu errei. Errei feio. Eu achei que você era forte. Achei que você não precisava de elogio, de festa, dessas coisas. Achei que você entendia a importância do que você faz. Mas você precisava ouvir. E eu nunca disse. — Não, pai. O senhor nunca disse. — Eu não sei fazer isso, Luizão. Meu pai não fazia comigo. Meu avô não fazia com ele. A gente foi criado assim. Trabalho é amor. Responsabilidade é amor. Eu achei que você sabia. — Eu não sabia. Eu precisava ouvir. Seu Roberto pegou a mão do filho. Mão grande, grossa, calejada. A dele tremia um pouco. — Você é o melhor filho que um homem pode ter. Leal, trabalhador, honesto. Você salvou essa fazenda mais vezes do que eu consigo contar. Você é meu orgulho. E eu nunca disse. Fui um idiota. Perdão. Algo quebrou dentro de Luiz. Algo que estava duro, rachado, prestes a desmoronar havia anos. Quebrou de vez. Chorou, ali, na varanda, na frente do pai, pela primeira vez desde que tinha doze anos. Seu Roberto abraçou o filho. Ficaram assim, abraçados, chorando baixinho, enquanto a noite esfriava. — O Gabriel também precisa de você — seu Roberto disse. — Ele tá perdido. Mais perdido do que você imagina. — Eu sei. — Você vai conseguir perdoar ele? — Não sei, pai. Não sei. — Você não precisa saber agora. Mas precisa tentar. Ficaram mais um tempo ali, em silêncio. Depois Luiz se levantou, entrou na casa, foi pro quarto. Tirou a bota, a roupa suja, tomou banho, se deitou na cama estreita, de solteiro, que era a sua cama havia dez anos. Dormiu pesado. Sonhou com coisas que não lembrava no dia seguinte. VII. Gabriel ficou. Aceitou o emprego no comercial da DuCão. Acordava cedo, ia de ônibus pra Ribeirão, voltava de noite, cansado, com cheiro de ração e produto químico no corpo. Comia com Luiz e seu Roberto na cozinha, falava pouco, dormia cedo. Luiz não falava muito com ele. Cumprimentava de manhã, perguntava se queria café, desejava boa noite. Nada além disso. Gabriel não forçava. Parecia entender que tinha um tempo pra aquilo, que não dava pra pular uma etapa sequer. Num sábado de outubro, Luiz estava trocando óleo da caminhonete quando Gabriel apareceu, de bermuda e camiseta velha, descalço. — Posso ajudar? Olhou pra ele. — Você sabe trocar óleo? — Não. Mas posso aprender. Pensou em mandar ele embora. Pensou em dizer que não precisava de ajuda. Mas alguma coisa na cara do Gabriel — cansaço, humildade, algo parecido com vergonha sincera — fez Luiz acenar com a cabeça. — Pega aquela bacia ali. Põe embaixo. Quando eu tirar o parafuso, vai jorrar óleo. Segura firme. Gabriel obedeceu. Ficaram ali, no sol quente da tarde, trocando óleo, limpando filtro, ajustando correia. Gabriel perguntava, Luiz respondia. Sem pressa, sem tensão. Só trabalho. Quando terminaram, Gabriel lavou as mãos na torneira do quintal. — Luizão. — Fala. — Eu fui um merda. Luiz não respondeu. Continuou guardando as ferramentas. — Eu não tenho desculpa. Eu sabia que você tava aqui, segurando tudo, enquanto eu... enquanto eu fazia o que eu queria. E eu não liguei. Porque era mais fácil não ligar. Porque eu sempre fui protegido. O queridinho. E você sempre foi o forte. Só que eu não sabia que forte não significa que não dói. Fechou a caixa de ferramentas. — Gabriel, eu não vou fingir que tá tudo bem. Porque não tá. Você me machucou. Não só você. O pai também. A família inteira. Eu fiquei aqui sendo invisível enquanto você brilhava. E eu engoli. Mas agora não engulo mais. — Eu entendo. — Não sei se você entende. Mas vou acreditar que sim. Silêncio. — Você precisa de perdão — Luiz continuou. — E eu preciso também. Preciso perdoar você, preciso perdoar o pai, preciso perdoar a mim mesmo por ter aceitado tudo isso durante tanto tempo. Mas perdão não é um clique, Gabriel. É um processo. E vai demorar. Gabriel balançou a cabeça. — Eu vou ficar. Vou trabalhar. Vou reconstruir. Não porque o pai mandou. Porque eu preciso. Preciso aprender a ser gente de novo. — Então fica. Mas não espera festa. — Não espero. Pegou a caixa de ferramentas, foi guardar no depósito. Gabriel ficou ali, no quintal, olhando o pasto. Depois foi pra dentro da casa, pro quarto de hóspedes que agora era o quarto dele, sem luxo, sem ar-condicionado, só cama e ventilador. VIII. No Natal, Dona Maria fez ceia. Nada exagerado. Peru pequeno, farofa, arroz, salada. A mãe veio de São Paulo pro fim de semana, ficou quieta no canto, olhando pros filhos como se ainda não acreditasse que estavam ali. Comeram na mesa da varanda, com vela acesa no centro, vinho simples, suco de uva pros que não bebiam. Seu Roberto fez um brinde. — Quero agradecer por esse ano. Foi difícil. Foi doloroso. Mas terminamos juntos. E isso é o que importa. Gabriel levantou a taça, constrangido. Luiz levantou também, devagar. Não sorriu, mas levantou. Depois da ceia, seu Roberto chamou Luiz no escritório. — Senta aqui. Sentou. Seu Roberto abriu a gaveta, tirou um envelope. — Isso é seu. — O que é? — Abre. Abriu. Dentro tinha a escritura de uma parte da fazenda. Trezentos hectares. No nome dele. — Pai… — Você merecia isso há dez anos. Eu fui injusto. Muito injusto. Não consigo devolver o tempo que você perdeu. Mas posso te dar isso. É seu. De verdade. Você decide o que fazer. Planta o que quiser, cria o que quiser. O lucro é seu. Não é salário. É patrimônio. Ficou olhando o papel, sem acreditar. — Eu não sei o que dizer. — Não precisa dizer nada. Só aceita. Abraçou o pai. Abraço apertado, demorado, daqueles que carregam dez anos de mágoa e dez segundos de alívio. Quando saiu do escritório, Gabriel estava na sala, esperando. — O pai te deu a terra? — Deu. — Você merece. — Eu sei. Ficaram se olhando. Depois Gabriel estendeu a mão. — Recomeço? Olhou pra mão estendida. Não era um perdão total. Não era esquecimento. Era outra coisa. Era aceitação. Era chance. Apertou a mão do irmão. — Recomeço. Foram pra varanda. Ficaram ali, os dois, olhando o pasto escuro, ouvindo o som da noite. Não falaram muito. Não precisava. Pela primeira vez em anos, os dois estavam no mesmo lugar, no mesmo tempo, ocupando o mesmo espaço sem peso, sem cobrança. Não era um final feliz de novela. Era final real. Com ferida ainda aberta, com cicatriz que ia demorar pra sumir, com desconforto que ia levar anos pra passar. Mas era final onde os dois estavam vivos, presentes, tentando. E talvez fosse isso que bastava. Na cozinha, Dona Maria guardava os pratos, cantarolando baixinho uma música de Natal. Seu Roberto e a esposa conversavam na sala, mãos dadas, olhando as fotos antigas penduradas na parede. Fotos dos meninos pequenos, sorrindo, abraçados, antes de tudo complicar. Lá fora, Gabriel acendeu um cigarro. Ofereceu pro Luiz. — Eu não fumo. — Nunca? — Nunca tive tempo de aprender. Gabriel riu. Não era riso de deboche. Era riso triste, cansado, de quem tinha entendido tarde demais. — Você devia ter tido tempo, Luizão. Pra fumar, pra beber, pra fazer merda. Pra ser novo. Eu roubei isso de você. — Não roubou. Eu deixei roubarem. — Mesmo assim. Ficaram mais um tempo ali. Até o cigarro acabar, até o frio da noite apertar, até Dona Maria gritar da cozinha que tinha sobremesa quente. Entraram juntos. Sentaram à mesa. Comeram pavê, tomaram café, ouviram a mãe contar histórias antigas, daquele tempo em que tudo parecia mais simples, mais leve, mais possível. Não era simples agora. Não era leve. Mas era possível. E talvez, no fim, fosse só isso que um homem precisasse: saber que amanhã ainda era possível, mesmo depois de ter perdido tanto, mesmo depois de ter doído demais. E a vida seguia, oferecendo pra quem quisesse aceitar: mais um dia, mais uma chance, mais um recomeço.
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