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As Aventuras de Robin Hood - Livro 1

Capítulos 1

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As Aventuras de Robin Hood Capítulo 12

O barão ouvia, sem dar muita atenção, a leitura das contas de um administrador, quando Robin, cercado por dois soldados e tendo à frente o sargento Lambic, de quem havíamos esquecido de dizer o nome, entrou no cômodo.

Imediatamente o impetuoso barão mandou que o contador se calasse e avançou até o pequeno grupo com uma expressão que nada de bom pressagiava.

O sargento ergueu os olhos para o seu amo, cujos lábios trêmulos se entreabriam, e achou mais polido deixar que ele tomasse a iniciativa de falar. O velho Fitz-Alwine, porém, não era homem a pacientemente esperar que o sargento fizesse seu relatório e aplicou nele uma violenta bofetada, como se dissesse: estou ouvindo.

 

— Eu aguardava… — balbuciou o pobre Lambic.

— Também eu aguardava. E a qual dos dois cabe aguardar, por favor? Não está vendo, imbecil, que há uma hora me disponho a ouvir? Mas desde já saiba, caro senhor, que já me falaram das suas façanhas. Mesmo assim, concedo ouvir pela segunda vez, agora da sua própria boca.

— O que Halbert lhe contou, monsenhor?

— Dá-se ao desplante de me interrogar? É isso? Não faltava mais nada! Essa é boa!

Trêmulo, Lambic contou a prisão do verdadeiro Robin.

Esquece-se de um pequeno detalhe, cavalheiro. Não está contando que soltou, depois de capturá-lo, o patife cuja prisão era mais importante para mim. Foi muito espirituoso da sua parte, cavalheiro.

— Está enganado, milorde, já lhe disse.

— Nunca me engano, cavalheiro. Isso mesmo, o senhor capturou um jovem que dizia ser Robin Hood e deixou-o livre quando esse outro jovem de Sherwood apareceu.

— É verdade, milorde — respondeu Lambic que, por prudência, havia omitido esse episódio da expedição à floresta.

— Realmente é o mais ajuizado, fogoso, astuto e esperto dos militares esse sargento Lambic, no comando de uma companhia dos meus soldados — exclamou o barão com deboche, para em seguida acrescentar: — Não se lembrou então das feições de quem havia colocado no calabouço poucas horas antes, rei dos idiotas, morcego, lesma inválida?

— Eu não havia visto nenhum dos dois prisioneiros, milorde.

— É mesmo? Tinha então uma bandagem nos olhos? Avance até aqui, Robin! — gritou o barão com voz estrondosa e desabando numa poltrona.

 

Os soldados empurraram Robin até o barão.

 

— Muito bem, pequeno buldogue! Ainda late tão alto? Vou repetir o que já disse antes. Responda com franqueza às minhas perguntas ou mando que meus homens deem cabo de você, entendeu?

— Pois faça as perguntas — respondeu com frieza o interpelado.

— Ah, voltou atrás e não se nega mais a falar? Muito bem!

— Faça as perguntas, milorde.

 

O olhar do barão, que parecia ter se suavizado, voltou a fulminar, fixando-se no rapaz, que sorriu.

 

— Como conseguiu escapar, filhote de lobo?

— Saindo da cela.

— Podia imaginar isso sem muita dificuldade; quem o ajudou?

— Eu mesmo.

— E quem mais?

— Ninguém.

— Mentira! Sei que foi o contrário disso. Sei que não poderia passar pelo buraco da fechadura e que abriram a porta para você.

— Ninguém abriu a porta e mesmo não sendo tão magro para sair pelo buraco da fechadura, meu tamanho não impediu que passasse pelas barras da lucarna da cela. Depois pulei para o muro, encontrei uma porta aberta, passei, percorri escadas, galerias e pátios, até chegar à ponte levadiça… Quando vi, estava livre, milorde.

— E o seu companheiro, como escapou?

— Ignoro.

— Vai precisar dizer.

— Não tenho como. Não estávamos juntos, nos encontramos por acaso.

— E em qual lugar do castelo se encontraram tão afortunadamente?

— Não conheço bem o interior do castelo, não posso designar o lugar.

— E onde estava o patife quando o sargento Lambic te prendeu?

— Não sei dizer. Tínhamo-nos separado momentos antes e eu seguia sozinho para a casa do meu pai.

— Ele é que tinha sido preso antes de você?

— Não.

— E onde está? O que aconteceu a ele?

— Ele quem, milorde?

— Sabe muito bem, espertinho. Allan Clare, seu cúmplice, seu amigo.

— Vi Allan Clare anteontem, pela primeira vez.

— Que tempo decadente o nosso, meu Deus! Os bandidos de hoje ousam nos mentir na cara! Não existem mais boa-fé nem respeito, desde que as crianças passaram a decifrar garatujas e a rabiscar papel! Minha própria filha sofre a influência desse vício, corresponde-se através de escrevinhações infernais com o miserável Allan Clare. Pois bem! Já que ignora onde se encontra o patife, ajude-me a descobrir onde poderei encontrá-lo. Prometo-lhe a liberdade como recompensa.

— Milorde, não costumo passar meu tempo a decifrar enigmas.

— Pois vou fazê-lo passar várias horas do dia nesse útil exercício. Ei! Lambic, devolva esse buldogue à corrente. Se ele fugir mais uma vez, que Deus lhe proteja da forca!

— Não escapará — respondeu o sargento, arriscando-se a um pálido sorriso.

— Saiam, então. E lembre-se da corda!

 

O sargento conduziu Robin de passagem em passagem, de escadaria em escadaria até uma portinhola aberta para um corredor estreito. Tomou então das mãos de um criado, que viera iluminando o caminho, uma tocha acesa e fez Robin entrar numa cela que tinha como único mobiliário um monte de feno.

Nosso jovem mateiro deu uma olhada em volta. Nunca nada lhe parecera tão inóspito. Saída alguma além da porta, feita de sólidas tábuas reforçadas com ferro. Como sair dali? Procurou imaginar um meio, algum expediente que tornasse inúteis as minuciosas precauções do carcereiro, sem descobrir nenhum. Foi quando viu brilhar no escuro do corredor, por trás dos soldados, o olhar claro e franco de Halbert. Essa visão devolveu-lhe a esperança e ele não teve mais dúvidas quanto à sua próxima libertação, lembrando que corações amigos se solidarizavam com a sua desgraça.

 

— É este o seu quarto — disse Lambic. — Entre, senhor, e deixe de lado as tristezas! Todos devemos morrer um dia, como sabe. Que seja hoje, amanhã ou mais tarde, pouco importa! E que importa também qual o tipo de morte? De um modo ou de outro, é sempre a morte.

— Tem razão, sargento — respondeu Robin com calma. — E entendo que lhe seja indiferente morrer como viveu… isto é, como um cão.

 

Dizendo isso, examinou com o canto dos olhos a porta ainda aberta e gravou a posição dos soldados lá fora. O criado que havia entregado a tocha a Lambic tinha ido embora e o jovem Hal também. Arrasados de cansaço, os soldados, que eram quatro, se encostavam nas paredes, sem prestar muita atenção ao falatório do chefe com o prisioneiro.

Hábil em planejar e rápido em executar, o jovem lobo de Sherwood aproveitou-se desse momento de desatenção dos soldados e da relativa fraqueza de Lambic, que tinha também seus movimentos atrapalhados pelo archote que segurava na mão direita e, dando um bote de gato selvagem, empurrou-o contra o rosto do sargento, apagando-o, e correu para fora da cela.

Apesar do escuro e das atrozes dores causadas pela queimadura no rosto, Lambic, seguido por seus homens, partiu com tudo à caça do fugitivo, mas nunca uma lebre em fuga foi mais ágil, nunca uma raposa tendo toda a matilha a seu encalço fez mais zigue-zagues, e os galgos do barão inutilmente escarafuncharam cantos e recantos da imensa galeria. Robin havia escapado.

Já há alguns instantes ele seguia, pé ante pé, sem saber onde se encontrava, com os braços esticados à frente para evitar os obstáculos, quando esbarrou em alguém que não pôde conter um grito de susto.

 

— Quem está aí? — perguntou uma voz quase trêmula. 

 

“Parece a voz de Halbert”, pensou Robin, que arriscou:

 

— Sou eu, amigo Hal.

— Eu quem?

— Eu, Robin Hood. Consegui fugir, mas estão atrás de mim. Esconda-me em algum lugar.

— Siga-me — disse o bravo menino. — Dê-me a mão e venha bem perto de mim. Sobretudo não faça barulho.

 

Após mil desvios no escuro e rebocando o fugitivo pela mão, Halbert parou e bateu de leve numa porta, cujas tábuas frias e mal unidas deixavam passar alguns raios de luz. Uma voz meiga perguntou quem era o visitante noturno.

 

— Seu irmão Hal.

 

A porta imediatamente foi aberta.

 

— Quais são as novidades, irmão? — perguntou Maude apertando a mão do rapazinho.

— Melhor do que novidades, mana; vire o rosto e veja.

— Santo Deus, é ele! — exclamou Maude saltando ao pescoço de Robin.

 

Surpreso e sem graça por ser recebido com tanta paixão, que ele se sentia longe de poder retribuir, Robin quis contar o que o havia trazido de volta ao castelo e falar da nova fuga, mas Maude não o deixou falar.

 

— Salvo! Salvo! Salvo! — ela balbuciava como louca entre lágrimas, risos, soluços e beijos. — Salvo! Salvo!

— Que estranha pessoa é você, Maude — disse o ingênuo aprendiz de escudeiro. — Achei que a agradaria trazendo Robin Hood e você chora feito uma Madalena.

— Hal tem razão — acrescentou Robin. — Vai estragar seus lindos olhos, Maude querida. Volte a estar alegre como pela manhã.

— Seria impossível — respondeu a moça com um profundo suspiro.

— Não vejo por quê — respondeu Robin inclinando-se sobre a cabeça de Maude e beijando a franja de cabelos negros que cobria-lhe a testa.

 

Ela provavelmente percebeu a frieza do rapaz com aquelas simples palavras: “Não vejo por quê”, pois empalideceu e soluçou amargamente.

 

— Maude querida, não chore mais, estou aqui! — repetia sem parar Robin. — Diga o que lhe causa tanta tristeza.

— Não me pergunte já, mais tarde saberá… Lady Christabel e eu procurávamos como libertá-lo… Como ela vai ficar feliz ao saber que escapou! O sr. Allan Clare recebeu a carta? Que resposta lhe traz?

— O sr. Allan não teve tempo de escrever nem de conversar comigo, mas sei suas intenções e quero, com a ajuda de Deus e o seu apoio, Maude, tirar lady Christabel do castelo e levá-la ao noivo.

— Vou correndo avisar milady — disse prestamente a camareira. — Não demoro, espere aqui mesmo. Venha comigo, Hal.

 

Sozinho, Robin se sentou à beira da cama da jovem e caiu em devaneios. Já dissemos que, apesar da pouca idade, ele falava e agia como um adulto. Devia essa precocidade à educação recebida de Gilbert, que o ensinara a pensar e agir sozinho, mas, além disso, a pensar e agir certo. O pai adotivo não havia ensinado, porém, que simpatias outras além da amizade podem fortuitamente nascer e se desenvolver, de forma irresistível, entre dois seres de sexos diferentes. O comportamento de Maude, desde aquele beijo furtivo que ele dera em sua mão, ao sair da capela, o surpreendera bastante. Mas de tanto pensar nisso, e mais ou menos por intuição, acreditou desvendar o que seria o amor; entendeu também ser amor o que Maude sentia por ele, e isso o afligia, pois nada sentia em troca, a não ser o fato de achá-la bonita, graciosa, amável e dedicada.

Mesmo assim, apesar de se afligir com a própria indiferença involuntária em relação a Maude, ele se censurava por tal indiferença e se perguntava se não devia, para não incorrer em falta de probidade, se esforçar a devolver com amor o amor de Maude. O ingênuo rapaz se prestava então a dar seu coração que acreditava ainda livre quando, bruscamente, a imagem querida de Marian passou diante dos seus olhos.

 

— Ai, Marian! Marian! — exclamou alvoroçado.

 

As dúvidas com relação a Maude estavam para sempre extintas.

A esse entusiasmo logo sucederam a incerteza e a tristeza. Marian, assim como Christabel, pertencia a uma família nobre e faria pouco do amor de um humilde rapaz da floresta. Talvez já amasse algum belo cavaleiro da corte. É verdade, Marian havia dirigido alguns meigos olhares a ele, mas o que garantia que não fossem causados unicamente pela gratidão?

À medida que Robin fazia a si mesmo essas perguntas e muitas outras, às quais respondia sempre de forma desvantajosa, a lembrança de Maude voltava a se fortalecer.

Bonita, tanto quanto Marian e Christabel, Maude não pertencia à nobreza, não tinha fidalgos como admiradores e um humilde caçador poderia fazer frente a eles. Maude dirigia-lhe olhares amorosos e não eram motivados pela gratidão; pelo contrário, Robin é que lhe devia favores.

Eram estranhas sensações que o percorriam durante esses devaneios, às quais ele se entregava com alternâncias de felicidade e aflição, quando um barulho de passos pesados, sem em nada lembrar a leveza de Maude, se fez ouvir no corredor. O som se aproximava do quarto e Robin apagou a luz ao ouvir a primeira pancada na porta.

 

— Ei, Maude! — disse quem estava lá fora. — Por que está apagando a luz?

 

Sem responder, o rapaz se agachou entre a cama e a parede.

 

— Abra para mim, Maude!

 

Impacientando-se por não ter resposta, o visitante abriu a porta e entrou. Não estivesse tão escuro, Robin teria visto um sujeito alto e igualmente corpulento.

 

— Não vai falar? Sei que está aqui, vi a luz da lamparina pelas fendas da porta — reclamou o homem, tateando por todo o quarto.

 

Por via das dúvidas, Robin foi se enfiando debaixo da cama.

 

— Ai, diabo de móveis! — praguejou o desconhecido batendo com a cabeça no armário e tropeçando ao mesmo tempo numa cadeira. — Inferno! É mais seguro me sentar no chão.

 

Fez-se silêncio. Robin pouco respirava e, quando necessário, o mais silenciosamente possível.

 

— Onde pode estar? — voltou a falar o sujeito, estendendo o braço e passando a mão pela cama. — Não está deitada. Por minha alma, começo a achar que Gaspar Steinkoff falou a verdade, o que lhe custou um bom soco no nariz! Ele disse: “Sua filha, mestre Hubert Lindsay, beija as pessoas com a mesma facilidade com que tomo um copo de cerveja.” O patife do Gaspar, dizer na minha frente que minha própria filha anda beijando prisioneiros!… Patife!… Mas é bem estranho que Maude não esteja no quarto a essa hora. Não pode estar com lady Christabel; onde mais estaria? Meu Deus! Minha cabeça vai explodir! Onde está minha pequena Maude? Pela santa mãe de Deus! Se tiver cometido algum erro… bah! Estou sendo tão miserável quanto Gaspar Steinkoff… insultando meu próprio sangue, minha vida, meu coração, minha filha querida. Ah! que cabeça velha e maluca tenho! Esqueço que Halbert deixou o castelo para procurar um médico para milady, que está doente, e Maude está com ela. Que bom que me lembrei disso. Mereço o chicote por ter pensado mal de minha própria filha.

 

Imóvel debaixo da cama, Robin também fora vítima de maus pensamentos e de alguns impulsos de ciúme, até se dar conta de que o visitante noturno era o guardião das chaves do castelo, o honesto pai de Maude, Hubert Lindsay.

Passinhos rápidos e precipitados, um roçar de vestido e o brilho de uma lamparina interromperam o monólogo de Hubert, que se pôs de pé.

Ao vê-lo, Maude não pôde conter um grito de susto, perguntando com ansiedade:

 

— O que faz aqui, pai?

— Vim falar com você, filha.

— Fica para amanhã, pai. Já é tarde e estou cansada. Preciso dormir.

— São apenas umas poucas palavras.

— Não posso mais ouvir nada, pai, estou surda; um beijo e boa noite.

— Tenho só uma pergunta; responda e vou embora.

— Estou surda, já disse, e agora muda. Boa noite, boa noite, boa noite — acrescentou Maude, aproximando a testa para um beijo do velho.

— Nada de boa noite ainda — disse Hubert com ar grave. — Quero saber de onde está vindo e por que não está ainda deitada.

— Estou chegando do quarto de milady, que está muito doente.

— Muito bem. Outra pergunta: por que é tão pródiga em beijos a certos prisioneiros? Por que beija um estranho como se fosse seu irmão? Não age corretamente, Maude.

— Beijei estranhos, eu? Eu mesma? Quem pode ter inventado semelhante mentira?

— Gaspar Steinkoff.

— Gaspar Steinkoff mentiu, meu pai. Não teria mentido se houvesse lhe contado o quanto fiquei indignada e furiosa quando ele ousou tentar me seduzir.

 

— Ele ousou!? — exclamou Hubert rubro de raiva.

— Ousou — repetiu energicamente a moça que, em seguida, se desmanchando em lágrimas, acrescentou:

— Resisti, consegui escapar e ele ameaçou se vingar.

 

Hubert abraçou a filha e, após alguns instantes de silêncio, disse com calma, uma dessas calmas no fundo das quais podemos adivinhar a frieza de implacável ira:

 

— Que Deus, caso perdoe Gaspar Steinkoff, conceda-lhe paz no outro mundo! No que me toca, não terei paz cá na terra até castigar o infame… Abrace-me, filha, abrace este seu velho pai que a ama, respeita e reza para que o céu vele por sua honra.

 

E mestre Hubert Lindsay voltou a seu posto.

 

— Robin — chamou imediatamente a jovem. — Onde está?

— Aqui — respondeu ele saindo do esconderijo.

— Estaria perdida se meu pai percebesse sua presença.

— De forma alguma — respondeu o rapaz com incrível candura. — Pelo contrário, sou testemunha da sua inocência. Mas diga, quem é esse tal Gaspar Steinkoff? Já o vi?

— Já. Era quem estava de vigia na cela em que foi preso pela primeira vez.

— Ele então que nos pegou… conversando?

— Ele mesmo — ela confirmou, sem poder deixar de ficar ruborizada.

— Será vingada. Lembro-me dele e quando o encontrar…

— Não se preocupe com ele, não vale a pena. É alguém que só merece desprezo… Lady Christabel quer vê-lo. Antes de levá-lo até ela tenho algo a dizer, Robin… Sinto-me muito infeliz… e…

 

Foi interrompida pelos soluços.

 

— Mais lágrimas! — exclamou afetuosamente o rapaz. — Não chore tanto. O que posso fazer para que se alegre? Diga e me porei de corpo e alma a seu serviço. Não hesite me contar o que a chateia, um irmão deve dar apoio à irmã, e sou seu irmão.

— Choro, Robin, por ser obrigada a viver nesse horrível castelo onde as únicas mulheres somos lady Christabel e eu, além das serventes da cozinha e do quintal. Fui criada com milady e, apesar da diferença das nossas condições, gostamos uma da outra como se fôssemos irmãs. Sou confidente das suas tristezas e também das alegrias. Apesar, no entanto, dos esforços da minha boa ama, entendo, sinto que sou subalterna e não me atrevo a pedir conselhos nem qualquer consolo. Meu pai, por melhor que seja, tão honesto e direito, só me protege de longe, e preciso, confesso, ser protegida de perto… A cada dia os soldados do barão me cortejam… e insultam, iludidos pela aparente pouca seriedade das minhas maneiras, por minha alegria natural, risos e canções… Sinto não ter mais força para suportar essa abominável existência! Preciso mudar essa situação ou morro! É isso, Robin, o que queria dizer. Se lady Christabel deixar o castelo, por favor, leve-me junto.

 

Tudo que o rapaz conseguiu foi exprimir enorme surpresa.

 

— Não me rejeite, leve-me, suplico! — voltou Maude com veemência. — Vou morrer, me matar se atravessarem a ponte levadiça sem mim.

— Está esquecendo, Maude querida, que sou quase um menino e não tenho o direito de levá-la para a casa do meu pai. Ele provavelmente não aceitaria.

— Menino! — reagiu a jovem com certa irritação. — Um menino que hoje pela manhã fazia brindes a seus amores!

— Esquece-se também de que o seu velho pai morreria de tristeza… Ainda há pouco o ouvi abençoá-la e jurar que puniria o caluniador.

— Ele perdoará, achando que segui minha ama.

— Sua ama pode fugir; tem o sr. Allan Clare como noivo!

— Tem toda razão, Robin. Enquanto não passo de uma pobre abandonada.

— Mas acho que talvez frei Tuck possa…

— Faz muito mal falando assim! — exclamou Maude indignada. — Eu brinco, canto, digo loucuras ao frade, mas sou pura, fique sabendo, sou pura! Meu Deus! Meu Deus! Todos agora me acusam, me veem como moça perdida. Isso está me deixando louca!

 

Com o rosto entre as mãos, ela se ajoelhou a gemer. Robin estava extremamente comovido.

 

— Vamos, levante-se — disse com doçura. — Muito bem, fuja com milady. Venha à casa do meu pai. Será filha dele, minha irmã.

— Deus o abençoe, nobre coração! — disse a jovem com a cabeça apoiada no ombro de Robin. — Serei sua criada, sua escrava.

— Será minha irmã. Vamos, agora dê um sorriso, um bom sorriso em vez dessas lágrimas.

 

Maude sorriu.

 

— O tempo está passando. Leve-me até o quarto de lady Christabel. A amiga voltou a sorrir, mas sem fazer qualquer movimento.

— O que está esperando?

— Nada, nada, vamos!

 

E essa última palavra, “vamos”, foi dita entre dois beijos nas faces vermelhas do nosso herói.

Lady Christabel esperava com impaciência o mensageiro de Allan.

 

— Posso contar com o senhor? — ela perguntou assim que Robin entrou.

— Com certeza, senhora.

— Deus o recompensará. Estou pronta.

— Eu também, minha ama! — exclamou Maude. — Vamos, não temos tempo a perder.

— Não temos? — estranhou Christabel.

— Não temos, milady! — confirmou rindo a camareira. — Acha que Maude poderia viver longe de sua querida ama?

— Como? Aceita me acompanhar?

— Não somente aceito, mas também morreria de dor se não o consentisse.

— Também estou na viagem! — exclamou Halbert, que até então se mantinha afastado. — Milady me toma a seu serviço. Sr. Robin, aqui estão seus arco e flechas, que peguei quando o prenderam na floresta.

— Obrigado, Hal — disse Robin. — A partir de hoje, somos amigos.

— Por toda a vida, até a morte! — entusiasmou-se o rapazinho com singelo orgulho.

— A caminho! — lembrou Maude. — Hal, vá na frente, e a senhora, milady, dê-me a mão. Vamos em silêncio geral e completo; o menor cochicho pode nos trair.

 

Havia, no castelo de Nottingham, uma comunicação com o exterior através de um imenso subterrâneo, cuja entrada se encontrava na capela e a saída na floresta de Sherwood. Hal o conhecia bem e serviria de guia, tornando fácil a travessia, mas era preciso antes chegar à capela. Sua porta, no entanto, não estava livre como no início da noite, pois o barão Fitz- Alwine ordenara que se postasse ali uma sentinela. Felizmente para os fugitivos, esse guarda resolvera cumprir as ordens no interior e, vencido pelo sono, dormia em cima de um banco como um cônego numa cadeira do coro.

Os quatro jovens penetraram então no santo lugar sem acordar o soldado e sem sequer notar sua presença, tamanha era a escuridão. Já estavam perto de alcançar a entrada do subterrâneo quando Halbert, que ia à frente, trombou contra um mausoléu e caiu fazendo barulho.

 

— Quem está aí? — assustou-se o vigia, achando ter sido pego em flagrante delito de sono.

 

Apenas o eco respondeu ao sonoro “Quem está aí?”, com suas ressonâncias indo de pilastra em pilastra e de abóbada em abóbada, disfarçando o barulho das vozes e da movimentação dos fugitivos. Hal se escondeu atrás do túmulo, Robin e Christabel sob a escada do púlpito e somente Maude não teve tempo de se ocultar. A luz de uma tocha clareou a capela e o vigia gritou:

 

— Santo Deus! É Maude. Maude, a penitente de frei Tuck! Sabe, minha bela, que fez tremer o bigode de Gaspar Steinkoff, acordando-o assim tão bruscamente, enquanto ele sonhava com as suas graças? Por Deus! Achei que o velho javali de Jerusalém, nosso amável senhor, passava em revista as sentinelas. Já que não é o caso, viva a alegria! O velho ronca e é a beldade que me acorda!

 

Dito isso, o soldado plantou sua tocha num candelabro do coro e avançou para Maude de braços abertos, querendo agarrá-la pela cintura, mas sendo repelido com frieza:

 

— Vim pedir a Deus por lady Christabel que está doente e quero rezar em paz, Gaspar Steinkoff.

— Que coincidência! — pensou Robin, ajeitando sem fazer barulho uma flecha no arco. — É o caluniador…

— Vamos deixar as orações para depois, bela — disse o soldado com as mãos na blusa da moça. — Não seja arisca e dê em Gaspar um, dois, três beijos, muitos beijos.

— Para trás, insolente! — gritou Maude, recuando ela própria. O soldado deu outro passo à frente.

— Para trás, caluniador! Já tentou fazer com que meu pai me maldissesse, só para se vingar do desprezo com que trato seus assédios odiosos! Para trás, monstro que nem respeita a santidade desse local! Para trás!

— Diabos! — praguejou Gaspar espumando de raiva e pegando à força a moça. — Diabos, digo! Vai pagar por esse seu atrevimento.

 

Maude resistia energicamente, certa de que Robin e Halbert viriam socorrê-la. Ao mesmo tempo, porém, temia que o barulho de uma luta chamasse a atenção dos soldados do posto mais próximo. Evitava então gritar, dizendo:

 

— Você é que será… castigado…

 

Uma flecha, disparada por mão que nunca errava o alvo, atravessou o crânio do celerado e o derrubou morto nas lajes do templo. Não tão rápido quanto a flecha, Hal se precipitava também em defesa da irmã, que desmaiara murmurando:

 

— Obrigada, Robin, obrigada…

 

A incerta claridade da tocha iluminava os dois corpos inanimados que jaziam lado a lado no chão; um isolado na morte e o outro cercado por corações fraternais que aguardavam, por olhos amigos que assistiam aos sintomas do retorno à vida. Robin colheu água benta da pia com as duas mãos e suavemente umedecia as têmporas da jovem. Hal lhe esfregava as mãos com as suas e Christabel recorria ao socorro da Virgem, em nome da mais pura amizade. Ou seja, os três se esforçavam como podiam para reanimar a pobre Maude e seria mais fácil que desistissem da fuga do que abandoná-la naquele estado. Alguns minutos se passaram até ela reabrir os olhos; minutos que pareceram séculos. Quando, no entanto, as pálpebras se ergueram, o primeiro e demorado olhar, um celestial olhar repleto de gratidão e amor, foi para Robin. Um sorriso escapou dos lábios exangues, nuanças rosadas substituíram a fria palidez das faces, o peito se dilatou, os braços se juntaram àqueles estendidos para erguê-la do chão. Sacudindo a letargia, foi ela a primeira a exclamar:

 

— Vamos!

 

A marcha pelo subterrâneo durou mais de uma hora.

 

— Até que enfim chegamos — avisou Hal. — Abaixem-se, a porta é pequena, e tomem cuidado com os espinhos da moita que disfarça a saída, do lado de fora. Virem à esquerda, bom. Agora damos a volta na moita e… adeus tocha, viva a luz da lua! Estamos livres!

— Agora é a minha vez de servir de guia — disse Robin, descobrindo onde se encontrava. — Estou em casa. A floresta é minha. Nada temam, senhoras, e ao amanhecer estaremos com o sr. Allan Clare.

 

A pequena caravana seguiu ligeira por bosques e matagais, apesar do cansaço das duas moças. A prudência impedia que seguissem trilhas e atravessassem clareiras, pois o barão provavelmente já havia enviado seus cães de caça. Mesmo com o risco de rasgar vestidos e machucar os pés e as pernas, deviam avançar como os gamos, de moita em moita, de picada em picada. Robin parecia ensimesmado há alguns minutos, e timidamente Maude perguntou por qual motivo.

 

— Irmã querida — ele respondeu —, vamos precisar nos separar antes do sol nascer. Halbert vai acompanhá-la até a casa de meu pai e expliquem a ele por que não voltei ainda de Nottingham. É necessário e prudente avisá-lo que acompanho milady até onde se encontra o sr. Allan Clare.

 

Os fugitivos separaram-se então com carinhosas despedidas, engolindo Maude as suas lágrimas e sufocando os suspiros, para seguir Halbert pela trilha indicada.

Lady Christabel e seu acompanhante — diga-se que Robin se tornara um autêntico cavalheiro — rapidamente alcançaram a estrada de Nottingham a Mansfieldwoohaus e o rapaz, antes de nela enveredarem, subiu numa árvore para explorar o terreno em volta.

Nada de suspeito se mostrou de início, até onde a sua vista alcançava, mas já descendo do ponto de observação, e achando que estavam com sorte, ele viu surgir numa das encostas um homem a cavalo que avançava a toda velocidade.

 

— Esconda-se ali, milady, naquela cavidade atrás do mato e, pelo amor de Deus, não se mexa nem dê o menor grito de medo.

— Estamos em perigo? Teme alguma coisa, meu amigo? — perguntou Christabel, vendo Robin colocar uma flecha no arco e se emboscar atrás de um tronco de árvore.

— Rápido, milady, esconda-se. Um cavaleiro vem em nossa direção e não sei se é amigo ou inimigo… De qualquer forma, se for um inimigo, e apenas um, uma flecha bem atirada vai poder pará-lo.

 

Não querendo assustar a jovem, ele não disse ter reconhecido, naquelas

 

primeiras claridades da manhã, as cores do barão Fitz-Alwine no penacho do cavaleiro. Christabel, por sua vez, pressentia as intenções hostis do arqueiro e teve vontade de dizer: “Chega de sangue, chega de mortes! A liberdade está custando caro demais!” Mas Robin pedia silêncio com uma mão, enquanto a outra empunhava o arco, e já o cavaleiro se aproximava a rédeas soltas.

— Em nome de Deus, esconda-se, milady! — murmurou Robin entredentes. — Esconda-se!

 

Christabel obedeceu e, cobrindo com o manto a cabeça, fez uma muda oração à Virgem. O cavaleiro se aproximava, se aproximava e Robin, escondido atrás da árvore, com o arco retesado e a flecha apontada, o espiava passar. Ele passou… passou rápido como o relâmpago… mas, mais rápida ainda, uma flecha venceu a distância, arranhou a anca do animal, obliquamente deslizou entre o flanco e o coxim da sela, e penetrou toda no corpo. Cavalo e cavaleiro rolaram na poeira.

 

— Corra, milady! — gritou Robin. — Vamos fugir!

 

Mais morta do que viva, Christabel tremia da cabeça aos pés, balbuciando:

 

— Ele o matou! Matou! Matou!

— Vamos fugir, milady — repetiu Robin. — Temos pouco tempo!

— Ele o matou! — continuava a balbuciar a jovem, como que enlouquecida.

— Não, não o matei, milady.

— Ele deu um grito horrível, um grito de agonia!

— Foi de surpresa, o grito.

— Como?

— O cavaleiro estava à nossa procura e estaríamos perdidos se eu não pusesse o cavalo na impossibilidade de levá-lo adiante. Vamos em frente, milady; compreenderá melhor quando não estiver tremendo tanto.

 

Tranquilizada, Christabel corria tão rápido quanto podia, tentando acompanhar Robin.

 

— O cavaleiro não sofreu nem um arranhão, milady, mas o pobre cavalo é que deu seu último galope. Tinha muita vantagem com relação a nós; poderia ir de Mansfieldwoohaus a Nottingham e voltar antes que conseguíssemos deixar essa estrada. Foi uma necessidade, então, fazê-lo parar. Estamos agora em situação de igualdade. Nem mesmo! Estamos melhor! Ele está a pé e nós também, é verdade, mas temos pernas ágeis e

 

sem nada que atrapalhe, enquanto ele não. Coragem, milady, já estaremos longe daqui até ele conseguir sair de sob o cavalo e continuar com suas botas pesadas, que não são botas de sete léguas… Coragem, milady. Allan Clare não está longe, coragem!

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