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As Aventuras de Robin Hood - Livro 1

Capítulos 1

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As Aventuras de Robin Hood Capítulo 18

Às primeiras horas do dia seguinte, Robin e João Pequeno entraram num albergue da cidadezinha de Nottingham para a refeição matinal. A sala estava lotada de soldados do barão Fitz-Alwine, como se podia ver pelos trajes.

Enquanto comiam, os dois amigos prestavam atenção às conversas ao redor.

 

— Não se sabe ainda — dizia um soldado — qual tipo de inimigo atacou os cruzados. Sua Senhoria acredita que fossem outlaws ou vassalos guiados por um dos seus inimigos. Monsenhor propriamente teve sorte, pois só chegou ao castelo algumas horas depois.

— Os cruzados ficarão por muito tempo no castelo, Geoffroy? — perguntou o estalajadeiro ao soldado.

— Não, seguirão amanhã para Londres, levando os prisioneiros. Robin e João Pequeno trocaram um olhar carregado de sentido.

 

O que se disse depois interessou menos aos nossos dois amigos e os soldados continuaram a beber e a jogar.

 

— William se encontra no castelo — murmurou Robin com voz quase inaudível. — Temos que procurá-lo por lá ou então aguardá-lo quando sair. Será preciso usar força, astúcia e boa estratégia, em uma palavra, libertá-lo.

— Estou pronto para o que for — disse João Pequeno no mesmo tom. Os dois deixaram suas cadeiras e Robin pagou a despesa.

 

No momento em que passavam pelo grupo de soldados, se dirigindo à porta, o sujeito a quem haviam chamado Geoffroy disse a João Pequeno:

 

— Por são Paulo! A cabeça do amigo parece ter muita simpatia pelas traves do teto. Se a sua mãe conseguir beijá-lo sem que você seja obrigado a se ajoelhar, ela merece um posto na tropa dos cruzados.

— Será que a minha estatura ofende os seus olhares, companheiro soldado? — perguntou João Pequeno com condescendência.

— De forma alguma, formidável desconhecido, mas francamente me surpreende muito, pois até agora achava-me o sujeito mais bem constituído e mais vigoroso do condado de Nottingham.

— Folgo em dar a visível prova do contrário — respondeu tranquilamente João.

— Aposto um pote de cerveja — disse Geoffroy dirigindo-se a seus companheiros — que, apesar do tamanho, o desconhecido não consegue tocar em mim com um bastão.

— Aceito — gritou alguém.

— Negócio feito! — respondeu Geoffroy.

— Se me permite — exclamou por sua vez João Pequeno —, ninguém perguntou se aceito eu o convite.

— Não acredito que negue quinze minutos de prazer a quem, sem nem conhecê-lo, apostou em você — disse o homem que havia entrado no jogo.

— Antes então de responder à fraterna proposta feita — replicou João Pequeno —, quero dar ao adversário um rápido aviso: não tenho tanto orgulho da minha força, mas devo dizer que nada se lhe resiste; acrescento que querer lutar comigo é procurar a derrota, pode ser até que acompanhada de algum estrago, no mínimo um abalo no amor-próprio. Nunca fui vencido.

 

O soldado riu alto.

 

— Tenho a impressão de que é o maior fanfarrão da Terra, isso sim — gritou debochando.

— E se não quiser que eu diga que é covarde, além de arrogante, vai aceitar uma disputa comigo.

— Já que é assim, aceito de coração, mestre Geoffroy. Antes, porém, de lhe dar provas de minha força, permita-me falar com meu amigo. Em seguida, prometo usar meu tempo para corrigir essa sua impudência.

— Não vá muito longe! — pediu Geoffroy zombando. Todos em volta deram boas risadas.

 

Ofendido com a insolente insinuação, João Pequeno avançou até o soldado.

 

— Se eu fosse normando — disse com a voz carregada de raiva —, poderia agir assim, mas sou saxão. Foi por pura modéstia que não aceitei de imediato o desafio, mas já que faz pouco-caso de meus escrúpulos, estúpido falastrão, já que me libera de qualquer consideração que possa ter, chame o estalajadeiro, pague sua cerveja e peça que prepare curativos, pois vai precisar muito deles para essa bola inútil que balança entre os seus ombros e que você chama de cabeça. Robin — virou João Pequeno para o amigo —, nos vemos logo mais na casa de Graça May, onde provavelmente vai encontrar Hal. Será perigoso se algum empregado do castelo o reconhecer e isso ainda comprometeria a fuga de Will. Sinto-me obrigado a responder a esse bravateiro que apareceu. Serei rápido, pode estar certo. Enquanto isso, procure evitar encontros inconvenientes.

 

Robin seguiu os sábios conselhos, mas a contragosto, pois perdia com isso o verdadeiro prazer de assistir ao espetáculo daquela luta em que o amigo facilmente devia triunfar.

Depois que Robin se foi, João voltou ao albergue. O grupo dos que bebiam tinha consideravelmente aumentado, pois a notícia da disputa entre Geoffroy o Forte e um estranho que não ficava atrás em vigor físico e em ousadia já havia atravessado a pequena cidade e atraído apreciadores desse tipo de combate.

João Pequeno observou a multidão com olhar indiferente e tranquilo, aproximando-se em seguida do adversário.

 

— Estou à sua disposição, sr. normando.

— E eu à sua — respondeu o outro.

— Antes de começar — acrescentou o saxão — quero agradecer a amabilidade do amigo que, contra um lutador desconhecido, se expõe a perder uma aposta. Quero então, como resposta a essa cortesia, acrescentar cinco xelins e apostar que não somente o deixarei estendido na terra, como também lhe acertarei a cabeça com o bastão. Quem ganhar os cinco xelins oferece uma rodada de bebida ao amável público.

— Concordo — respondeu Geoffroy satisfeito —, e dobro a soma se por acaso conseguir me ferir ou derrubar.

— Hurra! — gritou o “amável público” que, aliás, só tinha a ganhar, sem nada arriscar.

 

Acompanhados em tumulto pela multidão, os dois adversários deixaram a sala e foram se colocar, frente a frente, no meio de um amplo gramado, cujo espesso tapete convinha admiravelmente à circunstância.

Os espectadores se puseram em roda junto aos combatentes e um profundo silêncio sucedeu a algazarra.

João Pequeno em nada mudou seus trajes, limitando-se a deixar de lado as armas e descalçar as luvas, mas Geoffroy foi mais cuidadoso: despiu a parte mais pesada das roupas e mostrou-se com o tronco estreitamente cingido por um gibão de cor escura.

Os dois se estudaram por um momento, com persistente fixidez; João Pequeno apresentava uma expressão calma e sorridente; a de Geoffroy revelava uma vaga, mas indisfarçável preocupação.

 

— Estou pronto — disse João, cumprimentando o soldado.

— Às suas ordens — respondeu Geoffroy, igualmente polido.

 

Em simultaneidade de movimento, os dois estenderam as mãos, num cordial aperto que os uniu por um segundo.

A luta começou. Não vamos descrevê-la, diremos apenas que não foi longa. Apesar do vigoroso esforço de uma enérgica resistência, Geoffroy perdeu o equilíbrio e, com um movimento de inacreditável força e perícia nunca vista, João Pequeno lançou o adversário por cima da cabeça, a vinte passos de distância.

Furioso com a humilhante derrota, o soldado se levantou em meio ao tumulto do público, que gritava e lançava os gorros para o alto:

 

— Hurra! Hurra para o lenhador!

— Honestamente ganhei a primeira parte da nossa aposta, soldado — disse João Pequeno —, e me disponho a dar início à segunda.

 

Rubro de raiva, Geoffroy respondeu apenas com um sinal afirmativo.

Os dois homens mediram seus respectivos bordões e a luta se reiniciou mais viva, mais feroz, mais ardente.

Geoffroy foi mais uma vez vencido.

As comemorações entusiásticas da multidão celebraram as triunfantes proezas de João Pequeno e, já de volta ao albergue, uma torrente de cerveja rolou pelos copos em homenagem ao grande lenhador.

 

— Sem rancores, bravo soldado — estendeu a mão o vencedor ao vencido.

 

Geoffroy recusou o oferecimento amigável e respondeu em tom amargo:

 

— Não preciso da ajuda do seu braço nem de sua amizade, lenhador, e aconselho a que não ponha tanto orgulho nas suas maneiras. Não sou do tipo a calmamente aceitar a vergonha da derrota e se os deveres do meu serviço não me chamassem ao castelo de Nottingham, lhe devolveria cada uma das pancadas recebidas.

— O que é isso, amigo? — tentou João ser conciliador, pois realmente dava valor à coragem do soldado. — Não fique chateado nem guarde mágoa. Caiu diante de uma força superior à sua; não há mal nisso e vai conseguir, tenho certeza, recuperar sua reputação de vigor, sangue-frio e técnica. Reconheço com prazer, e permita-me proclamar, que não somente é muito bom na arte de manejar o bordão, mas também o atleta mais difícil de ser derrubado que alguém de coração firme e braço forte queira ter pela frente. Receba então, sem mal-entendido, a mão que ofereço, pois é com sinceridade e franqueza que a estendo.

 

Tais palavras foram ditas com tal consideração que pareceram mexer com o rancoroso normando.

 

— Aqui tem minha mão — ele a estendeu então —, que reclama da sua um cumprimento de amigo. E agora, meu rapaz — acrescentou Geoffroy, esforçando-se para que a voz soasse tranquila —, deixe-me saber o nome do meu vencedor.

— Não posso satisfazer por enquanto o seu pedido, mestre Geoffroy; mais tarde farei isso com prazer.

— Fico na expectativa. Mas antes que se vá, preciso dizer que ao me chamar normando cometeu um erro: sou saxão.

— Veja só! — respondeu alegremente João Pequeno. — Fico contente de saber que pertence à mais nobre raça do chão inglês. Isso dobra a estima e simpatia que me inspira. Voltaremos a nos encontrar em breve e serei mais comunicativo e confiante. Mas agora preciso ir; os negócios que me trouxeram a Nottingham assim exigem.

— Já? Está querendo ir embora, amigo da floresta? Não posso aceitar, acompanho-o até onde estiver indo.

— Por favor, amigo soldado, preciso encontrar meu companheiro, já me atrasei muito.

 

A notícia de que João Pequeno ia embora correu de boca em boca e criou verdadeiro tumulto.

Vinte vozes exclamaram:

 

— Vamos acompanhar o forasteiro! E falar a todo mundo da sua grandeza e valentia.

 

João, sem de modo algum desejar aquela repentina e ameaçadora popularidade, e vendo se aproximar a hora marcada para encontrar Robin, chamou Geoffroy à parte:

 

— Quer me fazer um favor?

— Com todo prazer.

— Pois me ajude a me livrar discretamente desse bando de beberrões. Preciso sair daqui sem chamar atenção.

 

Depois de pensar um pouco, Geoffroy foi terminante:

 

— Tem um só meio de conseguir.

— Qual?

— Acompanhe-me ao castelo de Nottingham, eles não poderão nos seguir além da ponte levadiça. Uma vez lá dentro, indicarei um caminho deserto que, por um desvio, o levará de volta à entrada da cidade.

— Com os diabos! Não há outro meio de me desvencilhar desses imbecis?

— Não vejo outro. O amigo não conhece a estúpida vaidade desses coitados. Querem estar com você apenas para serem vistos na sua companhia e poder contar aos vizinhos, parentes e conhecidos: “Passei duas horas com o corajoso sujeito que venceu Geoffroy o Forte; é meu amigo, entramos juntos na cidade ainda há pouco; precisava ter visto, eu estava à direita dele, ou à esquerda etc… etc…”

 

Bem contra a vontade, João Pequeno se viu obrigado a aceitar o conselho.

 

— Aceito o que propõe, vamos então sem perder tempo.

— É para já. Meus amigos — gritou Geoffroy —, preciso voltar ao castelo e nosso digno amigo vai me acompanhar. Peço que nos deixem tranquilamente ir embora. Se algum de vocês quiser nos seguir, mesmo a vinte passos de distância, verei isso como provocação e, por são Paulo!, o insolente vai se arrepender!

— Minha casa fica no caminho que vão tomar e sou obrigado a seguir na mesma direção — alegou alguém.

— Pois fará isso daqui a dez minutos! — respondeu Geoffroy. — Assim sendo, bom dia a todos e passem bem.

 

Dito isso, Geoffroy se retirou da sala e uma formidável aclamação acompanhou João Pequeno até a porta.

E foi assim que ele penetrou na senhorial moradia do barão Fitz-Alwine. Depois de deixar o amigo, Robin tomara o caminho da casa de Graça

May. Ele não conhecia pessoalmente a bonita prometida de Hal, ou somente pelos olhos do jovem apaixonado que não se cansava de descrever seus encantos. Para falar francamente, era então com muita curiosidade que ele se dirigia à casa de Graça May.

Demoraram a atender à porta e ele, cansado de esperar, começou a cantarolar a meia voz o estribilho de uma balada que o seu pai ensinara.

Aos primeiros refrões da melancólica canção, passos rápidos e agitados despertaram o eco adormecido da antiga moradia. A porta bruscamente se abriu, fazendo surgir uma jovem que, sem nem mesmo olhar para o visitante, exclamou num tom alegre:

 

— Eu tinha certeza que viria, Hal querido. Cheguei a dizer a minha mãe… Ah! Desculpe, senhor — confundiu-se a agitada mocinha que outra não era senão Graça May —, mil desculpas.

 

Enquanto assim se escusava, ela corava até a raiz dos cabelos e a causa de tanto embaraço era porque, na precipitação, ela literalmente se jogara nos braços de Robin.

 

— Cabe a mim me desculpar, por não ser quem a senhorita esperava — respondeu o jovem com voz extremamente gentil.

 

Atrapalhada e confusa, Graça May perguntou:

 

— Posso saber, senhor, a que devo a honra da visita?

— Senhorita — respondeu Robin —, sou um amigo de Halbert Lindsay e gostaria de vê-lo. Um motivo sério e que seria demorado demais explicar me impede de ir ao castelo procurá-lo. Agradeceria muito se me permitir esperar aqui a sua vinda.

— Pois não, claro. Os amigos de Hal são bem-vindos na casa de minha mãe. Entre, por favor.

 

Robin se inclinou cortesmente e a seguiu até uma ampla sala do andar térreo.

 

— Já fez uma refeição, senhor? — perguntou Graça.

— Já sim, senhorita, obrigado.

— Permita-me então oferecer um copo de cerveja, temos uma excelente.

— Aceito, pelo prazer de brindar à felicidade de Hal, meu muito afortunado amigo — disse Robin galantemente.

 

Os olhos da bela mocinha faiscaram de alegria.

 

— É muito cavalheiresco.

— Um sincero admirador da beleza, miss, nada mais. 

 

A jovem voltou a ruborizar.

 

— Está vindo de longe? — ela perguntou, como querendo manter a conversa.

— Bastante, de uma aldeia das proximidades de Mansfield.

— Gamwell? — perguntou imediatamente Graça.

— Exatamente. Conhece o vilarejo?

— Conheço   sim   —   ela   respondeu   com   um   sorriso.   —   Conheço perfeitamente, mesmo sem nunca ter ido.

— Como assim?

— Muito simples: a irmã de leite de Halbert, miss Maude Lindsay, mora no castelo de sir Guy. Frequentemente ele vai visitá-la e, na volta, fala muito dela e conta as novidades da região. Com isso — acrescentou com ternura a jovem —, ele me ensinou a conhecer e admirar os hóspedes de sir Guy. Entre eles, um em particular, de quem Halbert sempre fala com muita amizade.

— Quem? — riu-se o jovem.

— O senhor mesmo. Pois se não me ilude a memória, posso com toda certeza cumprimentá-lo como Robin Hood. Hal o descreveu tão bem que é impossível estar enganada: alto, boa constituição, grandes olhos negros, bonita cabeleira, aparência nobre…

 

O sorriso de Robin interrompeu a expansiva descrição de Graça May, que se calou e baixou os olhos.

 

— A generosidade de Hal o fez ser muito indulgente com relação a mim, senhorita; a seu respeito, porém, foi mais severo. Vejo que tudo que disse é inexato.

— Nada que me ofenda, tenho certeza — respondeu Graça com admirável confiança na reciprocidade do amor.

— Não, mas descreveu-a como uma das mais encantadoras pessoas de todo o condado de Nottingham.

— E o senhor não acreditou?

— Só agora me dou conta do erro que cometi ao acreditar.

— Que seja! — exclamou a moça sem se melindrar. — Fico contente de ouvi-lo falar tão sinceramente.

— Muito sinceramente. Disse que Hal foi severo no seu julgamento, descrevendo-a erradamente como uma das mais encantadoras mulheres de todo o condado.

— É verdade, senhor; deve-se, porém, perdoar o exagero vindo de um coração favoravelmente tendencioso.

— Não houve exagero, senhorita, mas cegueira, pois não é uma das mais bonitas do condado e sim a mais bonita.

 

Graça pôs-se a rir.

 

— Permita-me ver no que diz apenas amável galanteria. Tenho certeza de que se fosse louca a ponto de acreditar, acharia que sou uma tonta. Maude Lindsay tem uma beleza perfeita e, mais ainda, no castelo de Gamwell há uma jovem dama que o senhor acha mil vezes mais bonita do que Maude e mil vezes mais bonita do que eu. Mas é tão discreto quanto galante e não se atreve a dizer abertamente o que pensa.

— Não temo nunca falar com franqueza, senhorita — respondeu Robin —, e digo a verdade afirmando que é, no seu tipo de beleza, superior a todas as moças de Nottingham. A jovem dama a quem se refere igualmente tem direito ao primeiro lugar na particularidade das suas graciosas feições. Mas tenho a impressão de que a nossa conversa chega às beiras da lisonja e não quero que meu amigo Hal possa me acusar de lhe fazer cumprimentos excessivos.

— Tem toda razão, conversemos como amigos.

— Combinado. Mas então, miss Graça, responda francamente a pergunta que faço. Como, sem nem mesmo perder o tempo de olhar para mim, se jogou nos meus braços?

— A pergunta é embaraçosa, sir Robin, mesmo assim responderei. Foi a canção, que é a mesma que Hal está sempre cantarolando, e naturalmente confundi as vozes. Hal é um amigo de infância, fomos praticamente criados juntos no colo da minha mãe; tenho então com ele intimidades de irmã e nos vemos quase diariamente. Isso para explicar por que fui tão afoita, queira me desculpar.

— Por favor, miss Graça, não tem por que se desculpar. Agora que tive o prazer de conhecê-la, chego a invejar a felicidade de Hal e não me espantarei mais ao ouvi-lo gritar que é o maior felizardo do mundo.

— Sir Robin — interrompeu bem-humorada a moça —, mais uma vez caiu em flagrante delito de mentira. Não trocaria essa felicidade que diz quase invejar por aquela que mobiliza todas as suas esperanças.

— Adorável Graça — respondeu tranquilamente Robin — quando alguém dirige sua afeição a um coração honesto, nunca mais a retira, e tenho certeza de que caso me viesse à cabeça a ideia de suplantar Halbert no seu coração, seria rejeitado.

— É provável! — respondeu Graça com ingenuidade. — Mas não quero — acrescentou rindo — que Halbert saiba, pois ficaria convencido demais.

 

A conversa começada com tanta alegria se prolongou por mais uma hora.

 

— Hal está demorando muito — lembrou-se de repente Robin. — Os apaixonados são sempre impacientes e em geral chegam adiantados aos encontros.

— É o normal, não acha?

— Normalíssimo.

 

A aldrava finalmente soou à porta, junto com a mesma canção que Robin havia cantarolado e Graça, depois de olhá-lo como quem diz: “Está vendo? Era muito natural o meu engano”, correu ao encontro do recém-chegado.

A presença de Robin não fez com que a petulante jovem deixasse de reclamar do atraso, fazendo-se de zangada ao beijar o namorado.

 

— Como? Está aqui, Robin? — surpreendeu-se Hal. — E minha querida irmã, Maude? Como está?

— Não muito bem.

— Nada tão grave, não é? Irei vê-la.

— Fique tranquilo, nada grave.

— Esperava encontrá-lo aqui — continuou Halbert. — Soube, ou melhor, adivinhei que estava em Nottingham, e veja por quê. Indo à cidade fazer uma compra para o castelo, ouvi dizer que haveria uma luta a pauladas entre Geoffroy o Forte, sabe quem é, Graça?, e um lenhador. Tive então curiosidade de assistir ao evento.

— Enquanto eu esperava o senhor aqui — observou Graça, fazendo beicinho com os lindos lábios rosados.

— Não imaginava ficar mais de um minuto entre os espectadores. Cheguei no momento em que João Pequeno jogava longe Geoffroy, por cima da cabeça. Geoffroy o Forte, Geoffroy o Gigante, como o chamamos no castelo, imagine só, Graça, que lance formidável! Quis pedir notícias suas a João, mas foi impossível chegar perto dele. Andei pela cidade e, sem nada mais conseguir para minhas buscas misteriosas, fui perguntar por você no castelo.

— No castelo! — assustou-se Robin. — Falou de mim no castelo?

— Fique tranquilo. O barão chegou ontem e se fizesse a besteira de falar da sua presença na comarca, já estaria sendo caçado como um animal feroz.

— Foi totalmente infantil o meu susto, Hal. Sei o quanto é prudente e sabe guardar segredos. A finalidade da viagem foi principalmente a de vê-lo e pedir informações sobre os prisioneiros que se encontram no castelo. Provavelmente soube do que aconteceu bem recentemente na floresta de Sherwood.

— Sei. O barão está furioso.

— Azar o dele. Voltando aos prisioneiros. Entre eles está alguém que quero salvar a qualquer preço, Will Escarlate.

— William? — exclamou o rapaz. — E o que fazia no bando de malfeitores que atacou os cruzados?

— Não houve bando nenhum de malfeitores, Hal, e sim bons rapazes que cometeram a tolice de agir sem discernimento, supondo que atacavam o barão Fitz-Alwine e seus soldados.

— Foram vocês! — surpreendeu-se o pobre Hal, lamentando. Robin fez um sinal confirmativo.

— Agora entendo tudo: era de você que falaram os cruzados, referindo-se a alguém do bando que enviava a morte na ponta de cada flecha. Ai! Pobre Robin, o resultado da batalha foi bem negativo para vocês.

— Extremamente, Hal — repetiu Robin com tristeza —, pois meu pai foi morto.

— Morto, o bravo Gilbert! — disse Hal com a voz carregada de emoção.

— Meu Deus!

 

Um instante de silêncio deixou os dois rapazes absortos na dor. Graça não sorria mais, aflita com a tristeza de Hal e o desespero de Robin.

— E o bom William caiu nas mãos dos soldados do barão? — voltou Hal, querendo trazer de volta o pensamento de Robin ao amigo.

— Exato. E vim vê-lo, caro Hal, na esperança de que possa me ajudar a penetrar no castelo. Só vou embora de Nottingham depois de libertar Will.

— Conte comigo — respondeu prestamente o rapaz. — Farei tudo que puder para ajudá-lo nessa dolorosa circunstância. Vamos até o castelo; será fácil para mim fazê-lo entrar, mas uma vez no interior, terá que tomar todo cuidado, ser paciente e manter prudência. Com a volta do barão, a existência se tornou um verdadeiro inferno para todos nós. Ele grita, xinga, vai, volta, não nos deixa esquecer que está presente.

— Lady Christabel veio com ele?

— Não, apenas o seu confessor. Os soldados que o acompanharam não são daqui.

— Tem alguma notícia de Allan Clare?

— Nenhuma. Nem ninguém no castelo tem. Já lady Christabel, está na Normandia, tudo indica que numa instituição religiosa, sendo bem provável que o sr. Allan não esteja muito longe de lá.

— Com certeza — concordou Robin. — Pobre Allan! Espero que a fidelidade do seu amor seja afinal recompensada.

— E será — acrescentou Graça. — Há uma Providência que cuida dos enamorados.

— Confio na bondade dessa Providência — exclamou Halbert, lançando um olhar apaixonado à amada.

— Eu também — disse Robin, com o coração batendo forte por se lembrar de Marian.

— Amigo Robin — retomou o assunto Hal —, se for possível fazer /alguma coisa para salvar William, deve ser feito ainda hoje. Os prisioneiros partirão para Londres em plena noite para serem julgados e condenados segundo os caprichos do rei.

— Então vamos nos apressar. Prometi a João Pequeno que o esperaria junto à ponte levadiça do castelo.

— Graça, minha querida — disse Hal timidamente —, não brigue comigo amanhã por nos termos visto tão rapidamente hoje.

— Não, Hal, esteja tranquilo. Vá com coragem ajudar seu amigo e não se preocupe comigo. Rezarei ao céu para que tudo corra bem.

— Você é a melhor e a mais amada das mulheres, querida Graça — disse Hal, beijando as faces vermelhas de sua prometida.

 

Robin   se   despediu   obsequiosamente   da   jovem   e   os   dois   rapazes partiram com passos rápidos para o castelo.

 

— É VERDADE, é mesmo João Pequeno — disse Robin. — O que significa essa aparente intimidade?

— Aposto minha cabeça — respondeu Hal — que Geoffroy acabou ficando amigo de João Pequeno e o está levando ao castelo para oferecer- lhe uma bebida. É um excelente rapaz, mas imprudente. Trabalha há bem pouco tempo para o barão e as coisas vão se passar mal se ele se entregar com muita facilidade ao prazer de esvaziar garrafas.

— Pode deixar que a sobriedade habitual de João vai manter o companheiro dentro de limites razoáveis.

— Veja, Robin — interrompeu Hal. — João Pequeno já nos viu e está lhe fazendo um sinal.

 

Robin olhou.

 

— Pede-me que o espere, pois vai ao castelo. Vou fazê-lo compreender que entro com você e que nos encontramos lá dentro, em algum pátio.

— Ótimo. Digo que é um amigo e vamos até a cantina. Pelo falatório dos soldados, podemos descobrir em qual parte do torreão estão trancados os prisioneiros e quem é o encarregado da guarda. Se conseguirmos subtrair as chaves, libertamos William, mas para sair teremos que de novo atravessar os subterrâneos. Chegando à floresta…

— Vou deixar que nos sigam e até nos alcancem, se puderem! — exclamou brincando Robin.

 

A ponte levadiça foi baixada para Hal e em pouco tempo os dois se encontravam no interior do castelo de Nottingham.

Vendo-se obrigado a seguir Geoffroy, João Pequeno, pensando na liberdade do primo, resolveu se aproveitar daquela súbita amizade que o soldado normando demonstrava.

Não foi difícil conduzir a conversa para os recentes acontecimentos noturnos. Com toda boa vontade do mundo, Geoffroy satisfez a curiosidade do novo amigo e contou ter sob a sua guarda a vigilância dos três prisioneiros.

 

— Um deles inclusive tem ótima e distinta aparência — acrescentou.

— Ah! — fingiu-se pouco interessado João Pequeno.

— Mas garanto que nunca na vida você viu cabelos de cor mais estranha, quase vermelhos. Mesmo assim, como disse, é um belo rapaz, de olhos muito bonitos e que agora parecem duas brasas do inferno, de tanta raiva que brilha neles. Monsenhor foi até a cela do pobre coitado durante o meu turno: não conseguiu extrair nem uma palavra e se foi jurando que o enforcaria em no máximo vinte e quatro horas.

 

“Pobre Will!” pensou João Pequeno.

 

— E esse pobre coitado foi ferido? — perguntou.

— Está em tão boa forma quanto você e eu. Só o mau humor o aflige.

— Têm então calabouços nas muralhas? É coisa rara.

— Está enganado; vários castelos na Inglaterra têm.

— E onde ficam? Nas quinas?

— Em geral sim. Mas nem todos são utilizáveis. O rapaz de quem falei, por exemplo, está trancado num bastante razoável e nem tão desconfortável, na ala oeste. Aliás, pode até enxergar daqui o lugar, junto àquela barbacã. Está vendo?

— Estou.

— Pois acima dela há uma abertura larga o bastante para deixar passar ar e luz e, abaixo, uma portinhola.

— É verdade. E o tal sujeito de cabelos vermelhos está lá?

— Para a sua infelicidade.

— Pobre coitado. É bem triste, não acha, mestre Geoffroy?

— Muito.

— E pensar que um jovem vigoroso e saudável ali está preso entre quatro paredes e atrás de uma porta reforçada, alguém que, afinal de contas, nem causou grande mal e provavelmente esgota sua força em esforços inúteis — disse João Pequeno como quem faz uma simples reflexão. — Há sentinelas com ele?

— Não, ele fica sozinho. Se tivesse amigos seria fácil fazê-lo escapar, pois o ferrolho é do lado de fora. Basta puxar e, crac! A porta rolaria nos gonzos. Só que seria impossível atravessar a muralha do lado oeste.

— Por quê?

— O tempo todo há soldados por ali, enquanto o lado leste fica abandonado e seria um caminho mais seguro.

— Sem vigilância?

— Nenhuma. Essa parte do castelo fica completamente vazia. Tem fama de mal-assombrada; de forma que o medo mantém todo mundo longe.

— Com os diabos! Não é muito aconselhável se arriscar a fuga tão duvidosa. Mesmo que escape da cela, como atravessar as muralhas de uma fortaleza dessas?

— Alguém de fora e que ignore as passagens secretas seria pego antes de dar dez passos, mas eu, por exemplo, se precisasse fugir, tomaria a direção leste das muralhas, até um quarto inabitado e com uma janela dando para o fosso. A partir dela, à distância de um braço, um velho arcobotante serve de apoio para alcançar um estrado de madeira que flutua na água. É uma ponte improvisada que, imagino, tenha servido aos homens do barão que chegavam ao castelo depois do toque de recolher. Do outro lado, a salvação fica por conta da agilidade das próprias pernas.

— Tudo de que o pobre prisioneiro precisa é um amigo inteligente e safo.

— Isso mesmo, mas ele não tem. Meu caro — continuou Geoffroy —, vou precisar deixá-lo por alguns minutos para certas obrigações. Querendo, passeie um pouco pelo castelo e se por acaso alguém o interpelar, diga a senha, que é “de bom grado e honestamente”, e o deixarão seguir.

— Muito obrigado, mestre Geoffroy — despediu-se João Pequeno, reconhecido.

— Logo mais agradecerá ainda mais, maldito saxão! — grunhiu para si mesmo Geoffroy, se retirando. — Esse matuto se imagina igual a mim, mas sou normando, um verdadeiro normando, e vou provar que ninguém vence impunemente Geoffroy o Forte. Maldito lenhador! Derrubou um homem que nunca havia sentido no ombro o porrete de um adversário. Vai se arrepender por isso, pode ter certeza. Ah! Ah ! Ah! — riu forte o soldado.

— Caiu numa armadilha, grandalhão. Na certa veio salvar os amigos, pois foram malandros da sua espécie que atacaram os cruzados. Vai ganhar uma viagem por conta de Sua Majestade, e isso se minha faca não se enterrar no seu coração. Como mordeu a isca! Aposto minha vida que vou encontrá-lo daqui a pouco na muralha leste; poderei pagar de uma só vez tudo que lhe devo.

 

Enquanto ruminava tudo isso, Geoffroy imaginava poder, além de se vingar de João Pequeno, tirar bom partido do seu feito, junto ao barão.

Ficando a sós, nosso amigo João pôs-se a refletir.

 

— Esse sujeito pode até ser bem-intencionado — dizia para si mesmo o sobrinho de sir Guy —, mas não acredito muito nem em sua honestidade, nem em sua benevolência. Alguém tão ínfimo raramente tem a grandeza de perdoar e, mais ainda, de se interessar pelo adversário que o venceu. Ou seja, o tal Geoffroy está querendo me enganar. Fui pego na rede e preciso escapar para tratar da salvação de William.

 

João Pequeno saiu de onde estava e, seguindo ao acaso, se dirigiu a uma ampla galeria, cuja extremidade provavelmente o levaria ao lado leste da muralha.

Tendo percorrido por boa meia hora uma enfiada de corredores e passagens completamente desertos, acabou chegando diante de uma porta. Abriu-a e viu um velho, debruçado sobre um cofre, no qual empilhava com cuidado pequenas sacolas cheias de moedas de ouro. Entretido em cálculos, ele não percebeu a insólita presença do intruso.

João Pequeno se perguntava qual resposta deveria dar à inevitável pergunta que viria, quando o velho, erguendo a cabeça, finalmente notou o gigantesco visitante. Uma expressão de visível terror se estampou no seu rosto; ele deixou cair um dos saquinhos e o ouro, batendo no chão, produziu um som que fez estremecer o seu proprietário.

 

— Quem é você? — perguntou, com voz insegura. — Dei ordem para que ninguém entrasse nos meus aposentos. O que quer?

— Sou um amigo de Geoffroy; estava querendo chegar ao muro oeste e me perdi.

— Ah! Ah! — exclamou o velho, com um estranho sorriso se desenhando em seus lábios.

— É um amigo de Geoffroy o Forte, do valoroso Geoffroy? Na verdade, é um belo rapagão. Ouça, não quer trocar essa roupa de roceiro por um uniforme de soldado? Sou o barão Fitz-Alwine.

— Ah! O barão Fitz-Alwine? — exclamou João Pequeno.

— Isso mesmo. E um dia ainda vai se alegrar com a sorte de ter me encontrado, se tiver o bom senso de aceitar minha proposta.

— Qual proposta?

— Esta de entrar para o meu serviço.

— Antes de responder, permita-me algumas perguntas — disse João Pequeno, fechando muito tranquilamente, com duas voltas, a tranca da porta de entrada do quarto.

— O que está fazendo, lenhador? — indagou o barão tomado por súbito pavor.

— Evito interrupções, crio um obstáculo contra visitas que possam nos incomodar — respondeu o jovem em tom perfeitamente calmo.

 

Um clarão de furor atravessou os olhinhos cinzentos do barão.

 

— Está vendo isso? — perguntou João, mostrando a Sua Senhoria uma boa faixa de pele de cervo.

 

Sufocando de raiva, o velho se limitou a responder a inquietante pergunta com um sinal afirmativo.

 

— Pois então ouça bem o pedido que vou fazer. Se por um pretexto qualquer recusar, vou enforcá-lo sem piedade na cornija desse móvel pesadão ali do canto. Ninguém vai atender aos seus gritos, e isso pelo melhor dos motivos: vou impedir que grite. Tenho armas, uma vontade a toda prova, coragem equivalente a essa vontade e disposição para defender contra vinte soldados a entrada desse quarto. De qualquer forma, enfie isso na cabeça, é um homem morto caso não me obedeça.

— E o que deseja o bravo lenhador? — perguntou Sua Senhoria com voz afetada, enquanto pensava: “Patife miserável, vou esfolá-lo vivo se conseguir escapar dessa armadilha infernal.”

— Quero a liberdade…

 

Nesse momento, ouviram-se passadas rápidas no corredor e uma pancada forte sacudiu a porta. João Pequeno sacou da cinta uma faca de lâmina afiada, agarrou o velhote e disse em voz baixa e ameaçadora:

 

— Se der um grito, disser uma palavra perigosa para minha segurança, considere-se morto. Pergunte quem está batendo.

 

Apavorado, o barão prestamente obedeceu:

 

— Quem é?

— Sou eu, monsenhor.

— Eu quem, imbecil? — cochichou João Pequeno.

— Eu quem, imbecil? — repetiu o barão.

— Geoffroy.

— O que quer, Geoffroy?

— Tenho uma notícia importante, monsenhor.

— Que notícia?

— Tenho em meu poder o chefe dos patifes que atacaram os vassalos de Sua Senhoria.

— É mesmo? — sussurrou João Pequeno num tom debochado.

— É mesmo? — repetiu o pobre barão.

— Exatamente, milorde. E se Sua Senhoria houver por bem me permitir, lhe contarei com que astúcia consegui me apoderar desse bandido.

— Estou ocupado agora, não posso recebê-lo. Volte dentro de meia hora.

 

Essas palavras, sopradas por João Pequeno, saíram a muito custo, por assim dizer mastigadas, da boca do barão.

 

— Dentro de meia hora será tarde demais — respondeu Geoffroy com um tom de visível mau humor.

— Obedeça, idiota! Vá embora! Repito que estou muito ocupado.

 

Arrasado de raiva, o barão bem que teria dado, de bom grado, aqueles saquinhos de ouro do cofre pela chance de que Geoffroy viesse ajudá-lo. Só que este último, forçado a obedecer à ordem peremptória que acabava de receber, se afastou tão rapidamente quanto chegou e o barão voltou a estar sozinho com o gigantesco inimigo.

Logo que se perdeu nas profundezas do corredor o barulho dos passos do soldado, João Pequeno voltou a embainhar o punhal e disse a lorde Fitz- Alwine:

 

— Agora, sr. barão, vou dizer o que quero. Houve recentemente um combate na floresta de Sherwood entre seus soldados, que voltavam da Terra Santa, e uma companhia de bravos saxões. Seis homens foram aprisionados. Quero a liberdade desses seis homens e também que ninguém os acompanhe nem siga. Detesto espionagens e não as permitirei.

— Gostaria muito de poder agradá-lo nesse sentido, bravo lenhador, mas…

— Mas não quer fazer o que peço. Ouça, sr. barão, não tenho tempo para ouvir suas farsas nem paciência para isso. Dê a liberdade a esses pobres rapazes ou não respondo por sua vida, nem por quinze minutos mais.

— Você é bem decidido, rapaz. Combinado! Vou obedecer. Aqui está o meu sinete. Procure uma das sentinelas da muralha, mostre-o e diga que agraciei os patifes… os prisioneiros. A sentinela o levará ao encarregado dos seus protegidos e abrirá as portas da sala em que estão presos; pois os bravos rapazes não estão nos calabouços.

— Suas palavras me parecem sinceras, sr. barão, mas não me animam muito. Sinete, sentinela, vai e vem de um lugar para outro, tudo isso me parece bem complicado e dificilmente vai dar bom resultado. Assim sendo, prefiro que me acompanhe, de boa vontade ou não, até esse encarregado. Mandará que liberte meus amigos e nos deixará sair tranquilamente do castelo.

— Está pondo em dúvida minha palavra? — pareceu escandalizar-se o barão.

— Do início ao fim. E acrescento que, se tentar com uma palavra, um gesto, um sinal qualquer, me fazer cair em alguma armadilha, cravo-lhe na mesma hora, sem avisar, o punhal no coração.

 

A ameaça foi pronunciada de maneira tão firme, deixando que se visse determinação tão inquestionável, que não era possível duvidar que as palavras facilmente se confirmariam na ação.

Apenas por sua própria culpa o barão se encontrava naquela situação tão perigosa. Uma companhia de homens normalmente velava por sua segurança junto a seus aposentos ou pelo menos ao alcance de um chamado que facilmente pudesse ser ouvido. Naquele dia, porém, querendo estar só para cuidar em segredo da prodigiosa quantidade de ouro empilhada nos cofres (não existiam banqueiros, naquele tempo), ele dispensara a guarda e proibira que, a qualquer pretexto, alguém se aproximasse. Horrivelmente convencido da própria solidão, ele não se atrevia então a infringir a ordem formal de João Pequeno e sufocava gritos de pavor no peito, mantendo profundo silêncio. Pois lorde Fitz-Alwine era singularmente apegado à vida e não lhe viera ainda o desejo de rever os antepassados. Mas estava bem perto de fazer a triste viagem, pois a luta que inevitavelmente teria que travar com João Pequeno apresentava poucas probabilidades de sucesso: a liberdade prometida e tão imperiosamente exigida dos jovens saxões era algo irrealizável pela simples razão de que, às primeiras horas do dia, acorrentados uns aos outros e confiados à guarda de uns vinte soldados, os prisioneiros já tinham partido para Londres.

Dizimado pelas desastrosas guerras da Normandia, o exército de Henrique II estava bem enfraquecido e, mesmo estando o reino em paz, sua alteza recrutava, na medida do possível, jovens robustos, saudáveis e de boa estatura. Para agradar ao rei, os senhores feudais enviavam a Londres bom número de vassalos, e lorde Fitz-Alwine havia regressado a Nottingham apenas para escolher, entre os seus homens, uma tropa digna de se arregimentar no corpo do exército. A impressionante constituição de João Pequeno, sua atitude orgulhosa e o vigor hercúleo dos seus braços e pernas haviam imediatamente inspirado ao barão o desejo de enviá-lo ao rei. Com essa secreta intenção é que propusera que aceitasse o uniforme militar e entrasse para o seu serviço.

Obrigado a obedecer à última imposição do seu algoz, o barão resolveu esconder a verdade e levá-lo, a pretexto da visita aos prisioneiros, a uma ala do castelo em que seria possível obter algum socorro.

 

— Aceito seu pedido — disse então, levantando-se da cadeira.

— Fez a escolha certa, garanto, e se quer deixar para época ainda incerta a visita que deve a Satã, vamos agora mesmo. Ah! uma última coisa — acrescentou João Pequeno.

— Diga — gemeu o barão.

— Onde se encontra a sua filha?

— Minha filha? — surpreendeu-se muito Fitz-Alwine. — Minha filha?

— Foi o que ouviu, sua filha, lady Christabel.

— A bem dizer, amigo lenhador, é uma estranha pergunta esta que me faz.

— Não interessa! Responda com sinceridade.

— Lady Christabel se encontra na Normandia.

— Em que lugar da Normandia?

— Em Rouen. — É verdade?

— Absoluta. Vive num convento dessa cidade.

— E por onde anda Allan Clare?

 

O rosto do barão congestionou-se a ponto de ficar roxo, os dentes, trancados por trás dos lábios trêmulos, abafaram um grito de raiva e um indescritível olhar fulminou João que, com completo domínio sobre o frágil inimigo, repetiu devagar a pergunta:

 

— Por onde anda Allan Clare?

— Não sei dizer.

— Mentira! — reagiu João Pequeno. — Mentira! Ele há seis anos se foi em busca de lady Christabel e tenho certeza de que sabe o que aconteceu ao infeliz. Então, trate de dizer.

— Não tenho como.

— Não o viu nesses seis anos?

— Vi sim, o obstinado miserável!

— Sem insultos, por favor. Onde o viu?

— O primeiro encontro — recordou amargamente lorde Fitz-Alwine — se deu num lugar que devia ser proibido àquele vagabundo despudorado.

 

Encontrei-o nos aposentos da minha filha, a seus joelhos. Na mesma noite ela foi enviada ao convento. No dia seguinte ele teve a audácia de me procurar e pedir a sua mão. Mandei que meus homens o pusessem porta afora e desde então não mais o vi, mas soube ultimamente que entrou para o serviço do rei da França.

 

— Por vontade própria?

— Sim, para cumprir as condições do trato que fizemos.

— Que trato é esse? A que se comprometeu Allan? E em troca de quê?

— Ele ficou de fazer fortuna, recuperar a posse das suas terras, sequestradas por causa da ligação do seu pai com Thomas Becket. Prometi a mão de minha filha se ficasse longe por sete anos, sem tentar vê-la. Se faltar à palavra dada, faço o que bem aprouver de lady Christabel.

— A que data remonta esse compromisso?

— Foi há três anos.

— Muito bem. Vamos então cuidar dos prisioneiros e pô-los em liberdade.

 

No peito do barão abrasava-se verdadeiro vulcão e, mesmo assim, suas pálidas faces nada revelavam dos sinistros projetos que mobilizavam seu espírito. Antes de sair com João Pequeno, ele fechou bem à chave a preciosa caixa, assegurou-se de não deixar vestígio algum revelador dos seus polpudos tesouros e disse com tranquilidade:

 

—   Vamos, valoroso saxão.

 

João não era alguém que aceitasse cegamente seguir o itinerário escolhido pelo barão e foi fácil perceber que lorde Fitz-Alwine tomava direção oposta a que devia para chegar às muralhas.

 

— O sr. barão — ele disse, fazendo pesar sua forte mão no ombro do velho — escolheu um caminho que nos afasta de onde queremos chegar.

— Como sabe? — perguntou o barão.

— Porque os prisioneiros estão nos calabouços da muralha.

— Quem lhe deu a informação?

— Geoffroy.

— Que idiota!

— É verdade, pois além de dizer em que parte do castelo meus amigos estão, também indicou como fazê-los fugir.

— Não diga! Não vou deixar de recompensá-lo por isso. Mas, apesar de me trair, também o enganou: os prisioneiros não estão nessa parte do castelo.

— É possível, mas quero me certificar em sua companhia.

 

Abaixo da galeria em que se encontravam nossos dois personagens, bruscamente se ouviu o barulho dos passos de vários homens. Apenas uma escada separava lorde Fitz-Alwine desse socorro providencial e ele prontamente, aproveitando um momento de descuido de João, preocupado em entender aonde ia dar aquela galeria, se lançou à porta que se abria para a tal escada, e isso com extraordinária agilidade para a sua idade. No momento em que já se preparava para descer os degraus de quatro em quatro, uma mão de ferro desceu sobre o seu ombro. O pobre velho deu um grito esganiçado e se precipitou na fuga. Impassível, limitando-se a aumentar a passada, João Pequeno acompanhou a corrida insensata, que se tornava a cada minuto mais rápida. Encorajado pela esperança de encontrar ajuda, o barão continuou desenfreado e pedindo socorro, mas os gritos entrecortados não ecoavam e se perdiam na imensa solidão das galerias. No final de quase quinze minutos dessa estranha fuga, ele chegou a uma porta; empurrou-a com tanto ímpeto que ela se escancarou e o barão foi cair desarvorado nos braços de um homem que se adiantara em sua direção.

 

— Salve-me! Salve-me! É um assassino! — desesperava-se. — Pegue ele!

Mate!

 

Extenuado, depois de berrar esses apelos furiosos, o fidalgo escorregou das mãos que tentavam sustentá-lo e caiu chapado no chão.

 

— Para trás! — gritou João Pequeno, querendo manter longe o protetor do barão. — Para trás!

— Ora, ora, João! — estranhou uma voz conhecida. — A raiva o deixou cego a ponto de não reconhecer os amigos?

 

O grandalhão deu um grito de surpresa.

 

— Nossa! É você, Robin? Graças a Deus! É um acaso a que esse traidor tem muito que agradecer, pois sem isso, juro, seria a última hora dele.

— E quem é esse infeliz a quem perseguia dessa maneira, meu bravo João?

— O barão Fitz-Alwine! — disse baixinho Halbert no ouvido de Robin, tentando se esconder atrás dele.

— O barão Fitz-Alwine! Fico realmente contente de encontrá-lo, vou aproveitar para fazer umas perguntas importantes sobre amigos meus.

— Não perca tempo interrogando Sua Senhoria — adiantou-se João Pequeno. — Soube tudo que era preciso saber. Primeiro, sobre o paradeiro de  Allan  Clare,  em  seguida,  sobre  a  situação  dos  prisioneiros.  Ele justamente me levava ao calabouço para libertá-los. Ou, melhor dizendo, o traidor fingia fazer isso e se aproveitou de um minuto de descuido meu para fugir.

 

O desespero por esse último fracasso arrancou um gemido lúgubre do barão.

 

— A promessa de libertar nossos amigos foi para enganá-lo: eles partiram para Londres enquanto estávamos no albergue.

— Não pode ser! — exclamou João Pequeno.

— Mas assim é — respondeu Robin Hood. — Hal acaba de descobrir isso e estávamos procurando você para tirá-lo do antro do leão.

 

Ouvindo o nome de Halbert, o barão ergueu a cabeça, lançou-lhe um olhar furtivo e, confirmado o conluio com o inimigo, voltou à posição de vencido, resmungando para si mesmo mil imprecações contra o pobre rapaz.

O movimento do barão não passou despercebido deste último, bastante preocupado.

 

— Robin — disse ele —, Sua Senhoria acaba de me enviar um olhar mostrando que minha amizade por vocês vai me custar caro.

— Com certeza — murmurou surdamente lorde Fitz-Alwine —, não esquecerei essa traição.

— Pois então, caro Hal — respondeu Robin —, já que parece impossível que continue aqui e já que nossa presença no castelo se tornou inútil, vamos todos embora.

— Espere um pouco! — acrescentou João Pequeno. — Acho que prestaria um grande serviço ao condado livrando-o do imperioso domínio desse maldito normando. Vou enviá-lo a Satã.

 

A ameaça fez o barão dar um pulo, pondo-se num segundo de pé em suas pernas magras.

Hal e Robin foram fechar as portas.

 

— Bom lenhador, honesto arqueiro, meu pequeno Hal, não se mostrem impiedosos! — murmurou o velho. — Não tenho culpa da desgraça que atingiu seus amigos: eles atacaram meus homens, que se defenderam. Não acham normal? Aqueles bravos rapazes que caíram nas minhas mãos, em vez de serem enforcados como dev… como mere… quero dizer, como se era de imaginar, foram poupados e enviados a Londres. Não sabia que viriam hoje pedir a liberdade deles; tivessem me prevenido, muito provavelmente aqueles  bons  rapazes…  nada  mais  teriam  a  desejar  nesse  momento. Pensem um pouco: em vez de ficarem com raiva, sejam juízes e não carrascos. Juro que pedirei a graça dos seus amigos. Juro também perdoar Halbert a indig… a irreflexão do seu comportamento, mantendo o bom emprego que ele tem no castelo.

 

Enquanto falava, o barão estava atento a qualquer barulho por perto, esperando em vão um socorro que não chegava.

 

— Barão Fitz-Alwine — disse João Pequeno com gravidade —, devo agir segundo as leis que regem nossas florestas: o senhor vai morrer.

— Não! Não! — choramingou Sua Senhoria.

— Por favor, sr. barão, ouça. É sem raiva que falo. Há seis anos o senhor mandou pôr fogo na casa desse jovem. Sua mãe foi morta por um dos seus soldados e juramos, sobre o cadáver, punir o mandante do crime.

— Tenham piedade de mim — gemeu o velho.

— João Pequeno, poupe este homem em homenagem à angélica criatura de quem ele é pai — disse Robin, que acrescentou, voltando-se para o barão: — Milorde, prometa conceder a Allan Clare a mão de sua filha e terá a vida salva.

— Prometo, senhores da floresta.

— Manterá a palavra? — perguntou João Pequeno.

— Manterei.

— Deixe-o viver, João. O juramento que acaba de fazer está registrado no céu; se quebrá-lo, estará condenando a alma à eterna danação.

— Acredito que isso seja coisa já resolvida — respondeu João —, e não me conformo em deixá-lo sem nenhum castigo.

— Não vê que já está quase morto de medo?

— Vejo, mas assim que dermos cem passos ele nos enviará toda a sua tropa atrás.

 

Precisamos dificultar essa possibilidade, que seria arriscada.

 

— Vamos deixá-lo trancado — sugeriu Hal.

 

Lorde Fitz-Alwine lançou ao rapaz um olhar carregado de ódio.

 

— Boa ideia — concordou Robin. 

— E os gritos que ele vai dar, assim que estiver sozinho? Vai fazer um escândalo, não vê?

— Vamos então amarrá-lo numa cadeira com essa tira de pele de cervo que você usa como cinturão e amordaçá-lo com a bainha do próprio punhal.

 

Com força João Pequeno amarrou no encosto da cadeira o barão, que não ousou opor resistência.

Feito isso, os três rapazes rapidamente se dirigiram à ponte levadiça e o guardião, que era amigo de Hal, deixou-os atravessar sem dificuldade.

Enquanto nossos amigos se dirigiam correndo à casa de Graça May, Geoffroy, impaciente, voltou aos aposentos do barão.

Chegando diante da porta, ele primeiro bateu de leve e depois, sem ter ouvido resposta, deu pancadas mais fortes, ainda sem resultado. Estranhando o silêncio, chamou o barão, mas teve como resposta apenas o eco da própria voz. Com sua forte envergadura, arrombou a porta usando o ombro.

O quarto estava vazio.

Andou pelas salas, corredores, passagens e galerias, gritando a plenos pulmões:

 

— Monsenhor! Monsenhor!

 

Depois de longa busca, finalmente teve o prazer de se ver na presença do amo.

 

— Milorde! Senhor! O que aconteceu? — espantava-se, enquanto o desamarrava.

 

Lívido de raiva, o barão respondeu irritadíssimo:

 

— Mande suspender a ponte levadiça para que ninguém saia. Que vasculhem o castelo e encontrem o patife, um lenhador grandalhão escondido em algum lugar. Tragam-no bem amarrado. Mande enforcar Hal. Rápido, imbecil! Corra!

 

Exausto, o barão se arrastou até o seu quarto e Geoffroy, animadíssimo com a tentadora esperança de pôr as mãos em João Pequeno, foi transmitir as múltiplas ordens recebidas.

Uma hora depois, com o castelo sendo revirado à procura de João Pequeno, Hal, que se despedira antes da bela Graça May, atravessava com os amigos a floresta de Sherwood, na direção de Gamwell.

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