As Aventuras de Robin Hood Capítulo 14
Os dramatis personae que já entraram nessa história percorriam naquele momento a velha floresta de Sherwood.
Robin e Christabel chegaram ao local em que sir Allan Clare devia esperá-los e, consequentemente, seguiram na direção contrária à do sargento, que recebera ordem de incendiar a moradia do pai adotivo de Robin.
Seguido por vinte boas lanças, o barão, rejuvenescido por persistente raiva, acabava de partir em busca da filha. Vamos deixá-lo galopar a rédeas soltas pelos verdejantes atalhos da floresta para nos reunirmos a sir Allan Clare que, com o apoio de João Pequeno, frei Tuck, Will Escarlate e os seis outros filhos do nobre sir Guy de Gamwell, se encaminhava apressado na direção do vale de Robin Hood, enquanto Maude e Halbert seguiam na direção do cottage do velho guarda-florestal.
Maude não era mais aquela criatura esperta, incansável, corajosa e alegre. Ela tristemente repassava na memória as indicações que lhe dera Robin para não se perder nas mil trilhas que se cruzam e entrecruzam. A jovenzinha, enfim, apesar da salvaguarda de um intrépido rapazote, mais parecia uma pobre abandonada, a suspirar e suspirar pelo término da longa caminhada.
— Ainda falta muito para a casa de Gilbert?
— Não, Maude — respondeu bem-humorado Hal. — Creio que umas seis milhas mais.
— Seis milhas!
— Ânimo, Maude, ânimo. Fazemos isso por lady Christabel… Mas veja lá mais adiante, não percebe um cavaleiro, isso mesmo, um cavaleiro com um frade e alguns homens que parecem lenhadores? É o sr. Allan e também frei Tuck. Olá, cavalheiros! Nunca um encontro veio tanto a calhar.
— E lady Christabel e Robin, onde estão? — perguntou sir Allan ao reconhecer Maude.
— Foram esperá-lo no vale — respondeu Maude.
— Que Deus nos proteja! — exclamou Allan, depois de ouvir minuciosamente Maude contar todas as peripécias da fuga do castelo. — Bravo Robin, devo tudo a ele: minha bem-amada e minha irmã!
— Vamos avisar o pai adotivo dele dos motivos da sua demora — explicou Hal.
— Não poderia ir sozinho, irmão Hal? — perguntou Maude, que ardia de vontade de encontrar Robin. — Minha ama deve estar precisando muito dos meus cuidados.
Allan não viu inconveniente em aceitar a companhia de Maude e todos retomaram seus caminhos.
Frei Tuck, calado e isolado de início, não demorou a se aproximar da jovem. Tentou ser agradável, sorriu, falou menos bruscamente do que o de hábito, mostrou-se quase espirituoso. Mas as tentativas do pobre frade foram recebidas de forma extremamente reservada.
Essa mudança nas maneiras de Maude não só afligia Tuck, mas roubava- lhe também toda facúndia. Ele voltou então a se afastar um pouco mais e caminhava observando pensativo a mocinha, que seguia igualmente pensativa.
Uns poucos passos atrás de Tuck vinha outro personagem que também parecia muito desejar um olhar de Maude e que, procurando dar um jeito na desordem da sua aparência, batia com o antebraço as mangas e as abas da jaqueta, esticava a pena de garça que enfeitava seu gorro, alisava a densa cabeleira… Entregava-se, em plena floresta, a esses pequenos cuidados da brejeirice que todo enamorado principiante instintivamente executa.
E esse personagem outro não era senão nosso amigo Will Escarlate.
Maude preenchia para ele o ideal de beleza; era a primeira vez que a via e, no entanto, sempre reinara em seus sonhos e coração. Testa alva e ligeiramente abaulada, sublinhada por sobrancelhas delicadas e escuras, olhos negros que tinham o brilho amenizado pela cortina de cílios longos e sedosos, faces rosadas e aveludadas, nariz como os que modelavam os estatuários da Antiguidade, boca entreaberta para permitir que o amor se exprimisse e respirasse, lábios em cujas comissuras se aninhavam finos e meigos sorrisos, covinha no queixo que parecia prometer o prazer como o hilo da semente promete a flor, ombros e pescoço unidos por verdadeira linha serpentina, talhe esbelto, movimentos elegantes e pezinhos para os quais as veredas da floresta deviam se cobrir de flores: assim era Maude, a filha de Hubert Lindsay.
William não era suficientemente tímido para se limitar à admiração silenciosa: o desejo, a necessidade de sentir os olhos da jovem se erguerem em sua direção o levaram a rapidamente se aproximar.
— Conhece Robin Hood, senhorita? — perguntou Will.
— Conheço sim — respondeu ela com graça.
Sem saber, Will tocara uma corda sensível e com isso ganhou a atenção de Maude.
— E gosta muito dele?
A jovem não respondeu, mas suas faces ficaram muito vermelhas. Era preciso que Will fosse verdadeiro neófito para interrogar tão diretamente o coração feminino, agindo como o cego que anda sem vacilar à beira do precipício. Quantas pessoas demonstram coragem assim, mas que não passa de um efeito da ignorância!
— Pois eu gosto tanto dele — continuou Will — que não a veria com bons olhos, se também não gostasse.
— Então fique tranquilo, posso confirmar que o acho ótimo rapaz. Provavelmente o conhece há muito tempo?
— Somos amigos de infância; e preferiria perder a mão direita à amizade dele. Isso do ponto de vista pessoal. De modo mais geral, considero não haver no condado melhor arqueiro. E seu caráter é tão reto quanto as suas flechas. É corajoso e afável, com modéstia que se iguala à afabilidade e à coragem. Com ele me sentiria capaz de enfrentar o mundo inteiro.
— Quanto entusiasmo no que diz… Os elogios provavelmente são influenciados por isso.
— Tão certo quanto eu me chamar William de Gamwell e ser alguém honesto, o que digo é a pura verdade, senhorita.
— Maude — interrompeu Allan —, acha que o barão já se deu conta da fuga de lady Christabel?
— Sim, sr. cavaleiro, pois Sua Senhoria devia partir hoje de manhã para Londres, com milady.
— Silêncio! Silêncio! — pediu João Pequeno, que ia à frente como batedor. — Escondam-se na parte mais densa do bosque que encontrarem; ouço cavalos que se aproximam. Caso nos descubram, saltamos em cima deles. A senha para isso será o nome de Robin Hood… Rápido, escondam-se — insistiu ele, correndo para se colocar atrás de um tronco de árvore.
Logo em seguida, surgiu um cavaleiro numa montaria que transpunha todos os obstáculos, valas, árvores caídas, moitas e sebes, em fantástica velocidade. O cavaleiro, seguido com muita dificuldade por quatro outros, estava acocorado, mais do que montado, no fogoso animal. Tinha perdido o chapéu e os compridos cabelos soltos, agitados ao vento, davam a toda a sua figura uma aparência assustadora, estranha e diabólica. Passou raspando pela moita em que se escondera o pequeno grupo e João Pequeno notou uma flecha na garupa do cavalo, como uma baliza.
Cavalo e cavaleiro sumiram nas profundezas da floresta, ainda seguidos por quatro soldados.
— Que o céu nos proteja! — exclamou Maude. — Era o barão!
— O barão! — repetiram Allan e Halbert.
— Se não me engano — observou Will —, a flecha que parecia um leme em seu cavalo saiu da aljava de Robin. O que acha, primo João Pequeno?
— Concordo, Will. E concluo que Robin e a jovem dama estão em perigo. Ele é prudente o bastante para não sair atirando flechas que não sejam necessárias. Vamos apertar o passo.
Não será inútil um aparte para explicar a desagradável situação do nobre Fitz-Alwine, aliás ótimo cavaleiro.
Metendo-se floresta adentro, o barão dera ordens para que o seu melhor batedor inspecionasse a estrada principal de Nottingham a Mansfieldwoohaus, marcando com ele encontro em determinada encruzilhada para lhe fazer um relatório, mas sabemos o que aconteceu ao batedor: Robin o deixou a pé. Quis o acaso que o jovem e lady Christabel abordassem a tal encruzilhada prevista para o encontro no mesmo momento em que o barão chegava pelo lado oposto. Os dois fugitivos tiveram a sorte de se esconder a tempo num bosque e o barão, com seus quatro escudeiros, se colocou bem visível no meio da encruzilhada, numa parte mais alta, aguardando a volta do seu enviado.
— Vasculhem enquanto isso os arredores — mandou o barão. — Dois por aqui e dois por ali.
“Estamos perdidos”, pensou Robin. “O que fazer? Como fugir? Se formos por fora do bosque, os cavalos nos alcançarão em dois tempos, se tentarmos pelo interior, o barulho vai chamar a atenção desses farejadores… O que fazer?”
Enquanto pensava, preparou o arco, escolhendo na aljava a flecha com ponta mais afiada. Mesmo que arrasada de medo, Christabel notou esses preparativos e o amor filial foi mais forte do que o desejo de estar com Allan; ela implorou que o rapaz poupasse o seu pai.
Robin sorriu e fez um sinal afirmativo com a cabeça.
O sinal significava: não vou matá-lo; e o sorriso: lembre-se do cavaleiro desmontado.
Os soldados percorriam minuciosamente a orla da encruzilhada, mas o prêmio de cem escudos de ouro que estimulava tanto zelo não chegava a aumentar-lhes o faro. Mesmo assim, a situação de Robin e Christabel se tornava cada vez mais crítica, pois aqueles cães de caça, postos em dupla para dar a volta inteira na área, não completariam o percurso sem encontrá-los.
Enquanto isso, o velho Fitz-Alwine, todo prosa no alto do seu cavalo, como quem domina o campo inimigo, fazia um ensaio geral do sermão que a filha ouviria assim que estivesse de volta ao domicílio paterno. Tramava também requintes diversos para os castigos que aplicaria a Robin, Maude e Hal, calculando detalhes como a altura da forca que mandaria levantar para Allan. O excelente senhor já via em sonhos as convulsões daquele que se atrevera a raptar Christabel. Deixaria o cadáver apodrecer no patíbulo por todo o mês da lua de mel, sorrindo também com a ideia de ser avô já no ano seguinte ao casamento de Tristam de Goldsborough.
De repente, porém, no meio desses devaneios deleitosos, o cavalo do barão corcoveou, agitou-se todo, escoiceou e sacudiu freneticamente o velho guerreiro, que aguentou firme e tentou controlar o animal ali mesmo, como fazia antigamente com os indomáveis puros-sangues árabes. Baldados esforços! Homem e animal não se entendiam mais. Fitz-Alwine conseguiu se manter em sela tão firmemente quanto se mantinha na garupa do animal a flecha que acabara de se cravar ali. O cavalo e os devaneios do barão tomaram o freio nos dentes e deram início ao galope desembestado pela floresta, numa corrida desordenada, louca e fantástica que o fez passar por perto de Allan Clare, levando-o não se sabe aonde. Os quatro escudeiros partiram atrás em socorro e o hábil arqueiro, pegando sua acompanhante pela mão, pôde atravessar a encruzilhada.
O que aconteceu ao barão? Nem nos atrevemos a contar o que pôs fim à corrida desenfreada, de tão extraordinário e maravilhoso que foi, mas relatos da época garantem sua autenticidade. Aí vai:
Os escudeiros acabaram perdendo o barão de vista e talvez ele fosse levado através da Inglaterra, até o litoral norte, se o animal, ao passar por baixo de um carvalho junto ao qual havia um tronco de árvore no chão, não houvesse tropeçado.
Nosso barão continuava com toda presença de espírito e evitou a queda que, de tão violenta, poderia ser mortal: largando a rédea, se agarrou com as duas mãos num galho muito afortunadamente à sua altura, esperando ainda poder, ao mesmo tempo, reter o cavalo com a força dos joelhos. Mas o corcovo forçado do animal foi tão forte que o cavaleiro se viu obrigado a abandonar a sela, ficando suspenso pelas mãos no galho do carvalho, enquanto seu corcel, com menos peso, se firmou nas patas e partiu em nova corrida.
Pouco habituado à ginástica, o barão antes de pular mediu com toda prudência a distância que o separava do chão e, graças a isso, viu flamejar no lusco-fusco da manhã, bem abaixo dos seus pés, algo incandescente, como dois pedaços de carvão em brasa. Esses dois pontos ígneos pertenciam a uma massa negra que se mexia, girava e às vezes se aproximava aos saltos das pernas do infeliz lorde.
— Ai, um lobo! — pensou o barão, sem poder conter o grito de medo e se esforçando para subir e montar no galho.
Fracassando, um suor frio, que é o suor do pavor, o inundou. E ele sentiu roçar o couro da sua bota e estalar no metal das esporas os dentes do lobo que saltava, esticando o pescoço e a língua, salivando pela presa, enquanto esta sentia se enfraquecerem os braços e tentava apoiar o queixo no galho, encolhendo ao mesmo tempo as pernas até o peito.
A luta era desigual e o fio que mantinha no ar aquela guloseima para bestas ferozes ia romper-se. O velho lorde não tinha mais forças. Dirigiu então uma última lembrança a Christabel e recomendou a alma a Deus. Fechou os olhos, abriu as mãos… e caiu.
Por milagre da Providência, caiu como uma pedra bem na cabeça do lobo, que não esperava um quitute tão pesado. De fato, ao cair, o peso do corpo, despencando da forma mais volumosa, desconjuntou as vértebras cervicais da fera e partiu-lhe a medula espinhal.
De forma que se os quatro escudeiros tivessem chegado ao local do sinistro, teriam encontrado seu amo desacordado, ao lado de um lobo morto. Mas foram outros personagens e não os escudeiros que acordaram o nobre senhor de Nottingham.
AO PÉ DO VELHO CARVALHO, cujos galhos se debruçavam sobre o riacho que atravessa o vale de Robin Hood, estava sentada lady Christabel. De pé, a poucos passos, Robin se apoiava no arco e os dois esperavam, não sem impaciência, a chegada de sir Allan Clare e seus companheiros.
Esgotados os temas de conversa sobre a situação presente, falaram de Marian e os afetuosos elogios tecidos por Christabel às meigas e encantadoras maneiras da irmã de Allan foram ouvidos por Robin com a ardente atenção do amor.
Ele bem que gostaria de pedir uma informação específica e perguntar se, como Allan Clare, Marian já não dera o coração, por exemplo, a algum belo cavaleiro da nobreza, mas não se atrevia. “Se for o caso”, ele pensava, “estou perdido, pois que chance teria contra um rival assim, pobre filho da floresta que sou?”
— Milady — juntou ele suficiente coragem afinal para dizer, com voz emocionada e trêmula —, sinceramente lamento por miss Marian, se por acaso tiver deixado algum amigo mais especial para acompanhar o irmão nessa viagem tão cheia, quando não de perigos reais, pelo menos de dificuldades e canseiras.
— Marian tem a infelicidade, ou talvez a felicidade, de não ter ninguém mais especial em seu coração, além do irmão.
— Custa-me acreditar, milady. Bonita e encantadora que é, miss Marian deve ter, como a senhora ao cavaleiro Allan, alguém que lhe seja totalmente dedicado.
— Por mais estranho que possa parecer — respondeu a jovem ruborizando —, garanto que Marian desconhece a existência de outro tipo de amor, além do fraterno.
A resposta, em tom bastante distante, obrigou Robin a mudar de assunto. O sol já dourava o cimo das árvores maiores e nada de Allan. Ele disfarçava a preocupação para não inquietar a jovem, mas era assaltado por sombrias hipóteses sobre o atraso.
De repente, uma voz bem clara soou distante, assustando Robin e Christabel.
— Será um dos nossos amigos? — ela perguntou.
— Infelizmente não. Will, que conheço desde criança, e João Pequeno, seu primo, acompanham o sr. Allan e conhecem perfeitamente o local em que os esperamos. E toda essa história em que nos envolvemos exige prudência demais para que se divirtam com o eco da floresta.
A voz se aproximou e um cavaleiro, com as cores de Fitz-Alwine, atravessou rapidamente o vale.
— Precisamos nos afastar, milady; estamos ainda perto demais do castelo. Vou deixar uma flecha cravada na base desse carvalho e se nossos amigos chegarem e não nos virem vão entender que nos escondemos por perto.
— Sigo o que disser, confio inteiramente nos seus cuidados.
Os dois haviam atravessado algumas moitas e procuravam um lugar adequado para descansar, quando viram o corpo de um homem estendido imóvel e parecendo morto, perto de uma árvore.
— Misericórdia! — gritou Christabel. — É meu pai, meu pobre pai morto!
Robin sentiu um calafrio, imaginando-se culpado pela morte do barão.
Não teria sido o ferimento do cavalo a causa inicial daquela morte?
— Santa Virgem! Conceda-nos a graça de que tenha apenas perdido os sentidos! — murmurou ele.
Assim dizendo, o jovem arqueiro rapidamente se ajoelhou ao lado do corpo, enquanto Christabel, entregue à dor e ao arrependimento, gemia inconsolável. Um leve corte na testa do barão deixava escapar um pouco de sangue.
— Que estranho. Será que lutou com o lobo? Estrangulou o animal! — concluiu Robin entusiasmado. — E está apenas desmaiado. Milady! Milady! Veja, o sr. barão tem somente um arranhão. Venha ver, milady. Droga! — ele se deu conta. — Milady também desmaiou! Por Deus, e agora? Não posso deixá-la aqui… e o velho leão já está despertando, mexendo um braço, resmungando! Ah! É de enlouquecer! Milady, responda, por favor. Não, está muda como um tronco de árvore. Ah! Por que não tenho nos braços e nas entranhas a força que sinto ter no coração? Deveria levá-la daqui como uma ama de leite faria com uma criança.
Robin fez algumas tentativas para carregar Christabel.
Voltando a si, as preocupações do barão não se dirigiram, porém, à filha e sim ao lobo, o único e último ser vivo que ele viu antes de fechar os olhos. Estendeu o braço para agarrar o animal, que ele imaginou devorando a sua perna ou coxa, apesar não sentir dor alguma das mordidas, mas foi no vestido da filha que pôs a mão, jurando se defender até o último suspiro.
— Monstro infame! — xingou o lobo estirado ao lado. — Faminto da minha carne, sedento do meu sangue, saiba que resta ainda vigor nesses velhos membros, você vai ver… Ah! está de língua de fora, sendo estrangulado… que venham todos os lobos de Sherwood, podem vir!… Ah, ah! mais um, mais um! Estou perdido! Meu Deus! Tenha piedade de mim! Pater noster qui es in…
— Ficou louco, completamente louco! — pensava Robin, ansioso entre o dever a cumprir e sua segurança pessoal a garantir. Se fugisse estaria abandonando quem ele havia jurado levar até Allan, se ficasse, os urros do louco poderiam chamar a atenção dos homens que vasculhavam o bosque.
Mas, felizmente, o acesso do barão se acalmou e, de olhos ainda fechados, ele compreendeu não estar tendo os membros dilacerados por nenhuma fera. Tentou se levantar, mas Robin, ajoelhado atrás da sua cabeça, fez peso sobre os seus ombros, fazendo o papel, por assim dizer, de um cansaço extremo e mantendo-o bem esticado no chão.
— Por são Bento! — murmurou o lorde. — Sinto nos ombros um peso de cem mil libras… Meu Deus e meu santo padroeiro! Juro mandar construir uma capela a leste da muralha se me deixarem vivo e com forças para voltar ao castelo! Libera nos, quaesumus, Domine!
Terminando essa oração, ele tentou outra vez, mas Robin, esperando que Christabel recuperasse os sentidos, continuou fazendo peso.
— Domine exaudi orationem meam — continuou Fitz-Alwine batendo no peito e, em seguida, lançando gritos estridentes.
Mas tais gritos representavam grande perigo para a segurança dos fugitivos, e o rapaz, sem ver como interrompê-los, disse brutalmente:
— Cale a boca!
Ouvindo aquela voz humana, o barão abriu os olhos e grande foi a sua surpresa ao reconhecer, debruçado acima do seu rosto, o de Robin. Junto a isso, ao lado e estendida no chão, a sua filha desmaiada!
Tal aparição mandou para longe a loucura, a febre e o aniquilamento do irascível lorde que, como se tivesse pleno controle da situação, no castelo e cercado por seus soldados, exclamou quase triunfante:
— Até que enfim peguei-te, jovem buldogue!
— Cale a boca! — foi a resposta enérgica e imperiosa. — Cale-se! Chega de ameaças e gritos, não vão mais adiantar aqui. Além disso, eu é que o peguei!
E Robin continuou a fazer peso com toda força nos ombros do barão.
— Na verdade — disse Fitz-Alwine, que não teve dificuldade para se livrar das mãos do adolescente e se pôr completamente de pé —, vejo que o filhote de cão já está arreganhando os dentes!
Christabel continuava sem sentidos e, naquele momento, mais parecia um cadáver caído entre os dois homens, pois Robin havia prontamente saltado para trás e armava no arco uma flecha.
— Dê um passo mais e será um homem morto, milorde! — disse o jovem, mirando a cabeça do adversário.
— Ah, ah! — exclamou o barão ficando lívido e recuando lentamente para se proteger atrás de uma árvore. — Seria covarde a ponto de assassinar um homem sem defesa?
Robin sorriu.
— Milorde — disse, ainda mirando a cabeça —, continue a recuar. Ótimo, está bem escondido atrás da árvore. Agora, atenção ao que vou mandar, não, pedir-lhe que faça; preste atenção! Não ponha nem a ponta do nariz para fora dessa árvore, nem um fio de cabelo, de nenhum dos dois lados, senão, já sabe… é morte certa!
Sem considerar tanto assim as ameaças, mas bem protegido pela árvore, o barão deixou de fora o dedo indicador, como um sinal de intimidação ao jovem arqueiro. Logo, porém, se arrependeu amargamente, pois o dedo foi arrancado por uma flecha.
— Assassino! Patife miserável! Vampiro! Lacaio! — berrava o ferido.
— Silêncio, barão, ou aponto para a cabeça; está ouvindo?
Colado à árvore, Fitz-Alwine despejava a meia voz torrentes de maldições, mas se mantinha bem-comportado e protegido, imaginando seu carrasco calmamente de arco em punho e flecha apontada, vigiando o menor dos gestos que ele porventura fizesse fora da perpendicularidade do tronco de árvore.
Robin, no entanto, havia pendurado a arma a tiracolo, colocado sem fazer barulho Christabel num ombro e desaparecido no mato.
Nesse mesmo momento, ouviu-se um barulho de cavalgada e quatro soldados montados apareceram diante da árvore que servia de escudo para o infeliz barão.
— Aqui, seus cretinos! — ele gritou, pois os quatro eram aqueles mesmos que o escoltavam, mas que há muito tinham perdido de vista o corcel com a flecha na garupa. — Aqui! Peguem esse herege que quer me assassinar e raptar minha filha.
Os soldados ficaram sem entender, pois não viam por perto nem bandido nem donzela raptada.
— Ali, ali! Não veem que está fugindo? — continuou o barão se protegendo entre as pernas dos cavalos. — Ali, virando junto àquele matagal.
É verdade, Robin não tinha ainda vigor suficiente para transportar muito longe um fardo com aquele peso e apenas uma centena de passos o separava dos inimigos.
Os cavaleiros partiram então na sua direção, mas os gritos do barão também chegaram aos ouvidos de Robin, que imediatamente compreendeu que sua salvação não estava na fuga.
Dando meia-volta, ele pôs um joelho no chão, deitou Christabel atravessada na outra perna e gritou, apontando novamente uma flecha contra Fitz-Alwine:
— Por Deus, parem! Juro que se derem mais um passo o barão morre!
Ele nem havia acabado a frase e seu alvo já se escondera de novo atrás da árvore, gritando ainda:
— Peguem ele! Matem! Fui ferido!… Estão com medo? Covardes!
Mercenários!
Mas a firme atitude do intrépido arqueiro intimidava os soldados. Um deles ousou rir da situação:
— Até que canta alto, o galinho. Mas não faz mal, vão ver como vai se acalmar!
E desceu do cavalo, dando alguns passos na direção de Robin.
Com uma flecha no arco e outra presa entre os dentes, Robin, com a voz abafada mas em tom imperioso, avisou:
— Já pedi que não se aproximassem, agora estou ordenando… Nem terão tempo de se arrependerem, se não deixarem que eu siga em paz meu caminho.
O soldado riu com desprezo e continuou em frente.
— Um, dois, três… Pare!
O soldado continuava a rir, sem parar.
— Então morra! — gritou Robin.
O homem desabou no chão, com o peito atravessado por uma flecha.
O barão era o único a vestir uma cota de malha; os soldados estavam equipados como para uma caçada.
— Cães, joguem-se em cima dele! Ah, covardes! Covardes! Qualquer arranhãozinho os assusta! — continuava a vociferar Fitz-Alwine.
— Sua Senhoria chama isso arranhãozinho — murmurou um dos soldados, apontando para o camarada morto.
— Ei! — exclamou outro soldado, levantando-se nos estribos para enxergar mais longe. — Reforços estão chegando. Vejam! É o Lambic, monsenhor.
E eram mesmo Lambic e sua escolta que se aproximavam a toda brida.
O sargento estava tão contente e ao mesmo tempo com tanta pressa de contar ao barão o sucesso da expedição empreendida que nem notou Robin e gritou bem alto:
— Não encontramos os fugitivos, monsenhor, mas a casa foi incendiada.
— Bom, boa notícia — Fitz-Alwine respondeu impaciente —, mas olhe esse filhote de urso que os covardes estão com medo de aprisionar.
— Eh, eh! — riu com desprezo Lambic, reconhecendo o demônio da tocha. — Eh, eh, meu potrinho selvagem! Vou finalmente te colocar uma rédea! Saiba, meu cavalinho indomável, que estou chegando do seu estábulo. Achei que estaria por lá e, francamente, fiquei desapontado: teria visto a magnífica fogueira e poderia dançar uma giga com sua mamãe, no meio das chamas. Mas não fique triste; como não estava lá, quis poupar sofrimentos inúteis à pobre senhora e acertei-lhe antes uma flecha na…
Lambic não terminou a frase: um som rouco escapou da sua boca e, soltando as rédeas do cavalo, ele caiu. Uma flecha acabava de atravessar sua garganta.
Um indizível terror deixou paralisados os que assistiram à vingança. Robin aproveitou e, apesar do efeito causado pelas últimas palavras de Lambic, colocou Christabel no ombro e desapareceu no mato.
— Corram, corram — repetia o barão no extremo da raiva. — Corram, patifes. Se ele escapar serão todos enforcados, isso mesmo, enforcados!
Os soldados desmontaram e partiram ao encalço de Robin que, atrapalhado pelo peso transportado, perdia a cada minuto a dianteira que tinha. Quanto mais esforço fazia para se distanciar, mais se dava conta da sua inutilidade. Para piorar as coisas, a jovem começava a recobrar os sentidos e, com isso, se agitava convulsivamente e dava gritos agudos. Os movimentos desordenados quebravam a velocidade da corrida e mesmo que ele conseguisse se esconder numa moita, os gritos de Christabel os trairiam.
— Bom! Se for para morrer, que eu pelo menos morra me defendendo — pensou.
Procurou então um lugar adequado para deixar Christabel e enfrentar em seguida os homens do barão.
Um olmo cercado por mato e arbustos foi escolhido para receber a noiva de Allan e, sem nada dizer dos perigos que os ameaçavam, colocou-a no chão junto à árvore, deitou-se ao lado, rogou-lhe que permanecesse imóvel e em silêncio. Esperou, com o pensamento tomado por uma imagem horrível: o incêndio do cottage em que vivera, e com Gilbert e Marguerite morrendo em meio às chamas.
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