As Aventuras de Robin Hood Capítulo 19
Depois de estar plenamente recuperado do terror por que passara e da fadiga que isso havia ocasionado, o barão Fitz-Alwine ordenou que se buscassem, na cidade de Nottingham, referências sobre o tal lenhador.
Dispensável dizer que o nobre senhor se preparava para uma revanche estrondosa do inaudito insulto que lhe fora feito.
Geoffroy informou-o da fuga de Halbert e essa notícia só fez agravar sua irritação.
— Miserável patife! — disse o castelão. — Se for ainda incompetente a ponto de deixar que escape o bandido que se apresentou como amigo seu, será enforcado sem misericórdia.
Ansioso por recuperar a estima e a confiança do amo, o robusto soldado se dedicou meticulosamente à caça do lenhador. Percorreu de cima a baixo a cidade, vasculhou os arredores, interrogou estalajadeiros e fez isso com tanto afinco que descobriu que o guardião-mor da floresta de Sherwood, sir Guy de Gamwell, tinha um sobrinho que em tudo correspondia às descrições do gigantesco adversário. Soube que o rapaz morava na casa do tio e, ouvindo também a descrição feita pelos cruzados do chefe do bando noturno que os atacara, confirmou ser ainda esse parente de sir Guy o antagonista do barão e o seu vencedor no duelo daquela manhã.
A pessoa que deu ao soldado essas preciosas informações acrescentou que um jovem arqueiro, de habilidade que se tornava proverbial, chamado Robin Hood, igualmente se hospedava no castelo de Gamwell.
Como é de se imaginar, Geoffroy foi correndo comunicar ao barão o que acabava de saber.
Lorde Fitz-Alwine ouviu com tranquilidade a prolixa narrativa, demonstrando assim grande capacidade de paciência, e uma luz se fez em seu espírito. Lembrou-se de que Maude, ou Isabel,52 como ele normalmente chamava a camareira da filha, encontrara abrigo no solar de Gamwell, e que lá, então, deviam estar reunidos Robin Hood, chefe do bando, João Pequeno e demais componentes daquele insolente grupo.
Novas informações confirmaram a exatidão do relato de Geoffroy e lorde Fitz-Alwine resolveu imediatamente apresentar ao rei uma queixa severa contra aquela gente da floresta.
O momento era propício. Naquela época, Henrique II, que ativamente se preocupava com o policiamento interior do reino e procurava estabelecer maior respeito pela propriedade territorial, dava muita atenção às histórias de roubos e saques que lhe traziam.
Por ordem do rei, os culpados eram em geral encarcerados e, das celas do Estado, passavam às fileiras mais subalternas do exército ou aos tombadilhos da marinha.
Lorde Fitz-Alwine conseguiu uma audiência junto à justiça de Henrique II e expôs ao rei, exagerando muito, tudo que tinha contra Robin Hood. O nome chamou a atenção do soberano, que pediu novos esclarecimentos e soube tratar-se do mesmo Robin Hood que reivindicava os direitos ao título e aos bens do último conde de Huntingdon, alegando descender diretamente de Waltheof,53 a quem Guilherme I havia outorgado o condado. A requisição do pretendente, como sabemos, fora rejeitada e seu adversário, o abade de Ramsey, guardara a posse da herança.
Ao descobrir que o agressor do barão outro não era senão o pretenso conde de Huntingdon, o rei teve um acesso de raiva e condenou Robin Hood à proscrição. Decretou, além disso, que a família Gamwell, protetora declarada do rapaz, seria despojada dos seus bens e expulsa das suas terras.
Um amigo de sir Guy, ao ter conhecimento do cruel julgamento decidido contra o velho fidalgo, apressou-se em mandar avisá-lo. A terrível notícia deixou consternada a tranquila morada de Gamwell. Assim que souberam da desgraça que atingira seu amo, os aldeãos se reuniram ao redor do castelo e se solidarizaram com a família para a defesa do hall, dizendo preferir morrer no combate a ceder uma só polegada de terreno. Robin Hood sabia que sir Guy possuía uma bela propriedade no condado de Yorkshire e, aconselhado por João Pequeno, suplicou que o chefe da família deixasse Gamwell e levasse os seus para esse retiro mais seguro.
— Nada me preocupam os derradeiros dias que tenho de vida — respondeu o baronete, enxugando com mão trêmula lágrimas que avermelhavam suas pálpebras. — Sou como os velhos carvalhos de nossas florestas, cujas últimas folhas são arrancadas, uma a uma, pela mais leve brisa. Hoje mesmo meus filhos deixarão essa casa em ruína, mas, pessoalmente, não tenho força nem coragem para desertar do teto que foi dos meus pais. Nasci aqui e aqui morrerei. Não exija minha partida, Robin Hood, o lar dos meus antepassados será meu túmulo. Como eles, dormirei sob as travas que me viram nascer, como eles defenderei minha porta contra a invasão estrangeira. Leve minha mulher e filhas… Os rapazes, tenho certeza de que não vão querer abandonar o velho pai, e com ele defenderão o berço da nossa raça.
Os insistentes pedidos de Robin e João Pequeno não demoveram o baronete da decisão e foi preciso desistir da ideia de afastá-lo de Gamwell. Como as circunstâncias exigiam ações imediatas, deu-se prioridade à organização da partida das mulheres.
Lady Gamwell, suas filhas, Marian, Maude e as empregadas da casa foram confiadas a um grupo de aldeãos fiéis e já deixariam o hall ao cair da noite.
Terminados os preparativos para essa dolorosa separação, a família se reuniu no salão principal e Robin Hood, depois de confirmar a ausência de Marian, se dirigiu rápido a seus aposentos.
— Robin! — ele ouviu uma voz embargada pelo pranto. Voltando-se, viu miss Maude, que se desmanchava em lágrimas.
— Caro Robin, preciso falar com você antes de deixar o hall. É terrível, meu Deus! É possível que nem nos vejamos mais!
— Maude querida, acalme-se, por favor, e não deixe que pensamentos tão tristes a dominem. Logo voltaremos a estar juntos, prometo.
— Gostaria de poder acreditar, Robin. Na verdade, porém, é impossível. Sei perfeitamente qual perigo nos ameaça. A defesa que vão tentar tem dificuldades quase insuperáveis. Aproxima-se a hora da partida e gostaria, Robin, de demonstrar minha gratidão por toda a sua permanente amizade.
— Por favor, Maude, que entre nós nunca seja questão de gratidão e agradecimentos. Lembre-se do pacto de amizade feito há seis anos: prometi amá-la como um irmão e você, ter por mim a ternura de uma irmã. Adianto- me dizendo que cumpriu sua palavra e foi comigo a mais cuidadosa das amigas e a melhor das irmãs. E meu amor fraternal por você só fez crescer, desde então, cada vez mais.
— Verdade, Robin?
— Garanto que sim, Maude. Veja em mim um parente inteiramente dedicado à sua felicidade.
— Reconheço que sempre agiu de maneira a me convencer do seu afeto, Robin, e por isso me sinto segura o bastante para dizer…
Ela voltou a debulhar-se em lágrimas.
— O que você tem, Maude? Fale, sua boba. É tanta timidez que está parecendo um filhotinho de corça.
Com o rosto nas mãos, ela continuava a chorar.
— Vamos, Maude, coragem! Por que tanto desespero? O que está querendo contar? Estou ouvindo, fale sem receio.
Ela deixou caírem as mãos, ergueu os olhos, tentou sorrir e finalmente disse:
— Estou sofrendo muito… Penso em alguém que teve mil delicadezas comigo, mil cuidados, foi atencioso…
— Está se referindo a William — rapidamente interrompeu Robin. Ela corou.
— Que bom! Ah! Maudezinha, abençoado seja Deus se ama nosso querido Will! Daria tudo para vê-lo a seus joelhos. Como ele ficaria feliz, ouvindo-a dizer: “William, eu te amo.”
Maude tentou negar, dizendo não ser a esse ponto, mas foi obrigada a reconhecer que, de tanto pensar no rapaz, acabara descobrindo ter muita ternura por ele. Depois dessa confissão embaraçosa, sobretudo diante de Robin, ela quis saber as razões da ausência do rapaz. Robin respondeu que um assunto importante o obrigara a se afastar, mas nada que fosse preocupante, e em poucos dias Will estaria de volta ao seio da família.
A mentira, motivada pelo carinho, devolveu a calma e a serenidade à jovem, que ofereceu as faces ainda coradas pelas lágrimas e, tendo recebido um beijo fraternal, apressou-se a descer ao salão.
Só então Robin pôde se dirigir aos aposentos de Marian.
— Querida amiga — disse ele, tomando entre as suas as mãos da jovem —, estamos prestes a nos separar, talvez por tempo bastante longo. Permita-me então, antes disso, exprimir o que se passa em mim.
— Estou ouvindo, caro Robin — respondeu afetuosamente a moça.
— Você bem sabe o quanto a amo do fundo do coração — ele continuou, com voz insegura.
— Diariamente tenho provas disso, meu amigo.
— Você confia em mim, não é? Acredita inteira, completa e absolutamente na sinceridade e terno desprendimento da minha dedicação?
— Não tenho dúvidas nesse sentido, mas por que pergunta, se o considero honesto, valente e verdadeiro amigo?
Em vez de responder, Robin deu um sorriso triste.
— Está me deixando assustada, Robin. Fale, eu lhe suplico. Essa seriedade no rosto, a gravidade da atitude e a estranheza das suas perguntas me fazem pressentir nova desgraça, além das que há tanto tempo me afligem.
— Esteja tranquila, Marian — procurou ele mostrar-se apaziguador —, felizmente não tenho más notícias a comunicar. É sobre você mesma que quero falar, e não me queira mal por insistir. Apesar de todo bom senso, o amor é egoísta e o meu vai ser submetido a uma difícil provação. Vamos nos separar, Marian, e talvez para sempre.
— Não diga isso, Robin, é preciso confiar na bondade divina.
— Ah, querida! Vejo tudo à minha volta desabar e sinto partido o coração. Veja essa digna e hospitaleira família: estendeu-me a mão quando fiquei errante e sem abrigo, e por isso foi condenada ao banimento, com bens confiscados e expulsa da própria casa. Defenderemos o hall e enquanto houver pedra sobre pedra na aldeia de Gamwell, aqui estarei, de pé. A Providência, da qual você espera socorro, nunca me abandonou no perigo e, como você, tenho nela plena confiança: combaterei e sei que conto com sua proteção. Mas veja bem, Marian, um édito real me proscreveu do reino e posso ser enforcado na primeira árvore da estrada ou enviado ao patíbulo por qualquer delator, pois minha cabeça foi posta a prêmio. Robin Hood, conde de Huntingdon — acrescentou ele com orgulho —, nada mais é! Mesmo assim, Marian, continuará a meu lado e mantendo a promessa de ser minha amada companheira?
— Sim, sim, Robin.
— Mas quero apagar do coração essa promessa, Marian, esquecê-la. Devolvo-lhe, adorada Marian, a liberdade. Abro mão do seu compromisso.
— Robin! — reagiu em tom de censura a jovem.
— Estaria sendo indigno do seu amor se, na atual situação, guardasse a esperança de torná-la minha. Sinta-se livre de dispor da sua mão e apenas peço que se lembre, vez ou outra, desse infeliz proscrito.
— Tem má opinião a meu respeito, Robin — melindrou-se a jovem. — Como, por um só instante, pôde achar que a pessoa a quem ama fosse tão indigna do seu amor? Como pôde achar que meu afeto pudesse ser infiel na desgraça? — desfez-se ela em lágrimas
— Marian! Marian! — confundiu-se Robin. — Por favor, ouça sem se aborrecer. Amo-a tão loucamente que me envergonha condená-la a meu infeliz destino. Deve imaginar o quanto profundamente me humilha a cruel desonra que mancha o meu nome e como a ideia de nos separarmos inunda de amargo sofrimento a minha alma. Porém, sem o seu amor, Marian, eu me cravaria uma faca no coração; ele é o único laço a me prender à vida. Você que foi habituada ao luxo, querida, sofreria cruelmente com a pobreza, caso se tornasse a mulher de Robin Hood. E, juro, prefiro perdê-la para sempre a imaginá-la infeliz a meu lado.
— Pertencemo-nos um ao outro perante Deus, Robin, e a sua vida será a minha. Mas, agora, deixe-me fazer algumas recomendações. Sempre que puder, de maneira segura, fazer chegar a mim notícias suas, mande uma mensagem e, se for possível, venha pessoalmente, pois ficarei muito feliz. Meu irmão há de voltar e, assim espero, com ele conseguiremos revogar o cruel decreto que o condena.
Robin sorriu com tristeza.
— Não alimente esperanças quiméricas, querida. Nada espero do rei. Tracei para mim uma linha de atitudes e estou firmemente decidido a dela não me afastar. Caso ouça comentários ruins a meu respeito, não dê ouvidos à calúnia. Por nossa santa Madre, juro que sempre merecerei sua estima e amizade.
— Qual comentário desse tipo eu poderia ouvir, Robin, e quais são os seus planos?
— Não me faça perguntas, querida. Considero honestas minhas intenções e se o futuro demonstrar o contrário, serei o primeiro a reconhecer o erro.
— Sei que é leal e valente, Robin, e pedirei a Deus que o assista em tudo que fizer.
— Obrigado, minha amada Marian. Preciso ir — acrescentou ele, contendo as lágrimas que banhavam seus olhos.
Abraçada pelo desventurado amigo, a jovem sentiu que suas últimas forças a abandonavam. Escondeu o rosto em pranto no ombro de Robin e dolorosamente soluçou.
Por alguns minutos os dois ali permaneceram mudos, distantes de tudo.
Uma voz enfim chamou Marian e os fez interromper aquele último enlace.
Os dois desceram e a jovem, já em trajes de amazona, montou no cavalo que a esperava.
Lady Gamwell e as filhas estavam tão abaladas pela dor que mal se aguentavam em sela.
As empregadas da casa, na maioria casadas, os filhos pequenos e alguns idosos completavam o grupo montado. Foram adeuses dilacerantes e as portas do hall se fecharam atrás dos fugitivos que, acompanhados por alguns homens decididos, tomaram o caminho da floresta.
Uma semana se passou e cada dia dessa semana de expectativas foi empregado na fortificação de Gamwell. Os habitantes da aldeia viviam num suplício aflitivo, por assim dizer, pois cada hora transcorrida trazia o medo do dia seguinte. Sentinelas foram postadas ao redor do hall e, sob a direção de Robin, construíram-se duas linhas de barricadas que serviriam, quando não para impedir o avanço do inimigo, pelo menos para erguer sérios entraves ao ataque. Com a altura de um homem, as barricadas permitiam que os camponeses se pusessem ao abrigo das flechas mortais dos adversários, mas deixando que tivessem boa visão para seus próprios disparos.
Mas que não se imagine que sir Guy tivesse ilusões quanto ao desfecho da batalha, que indubitavelmente era perigosa e inútil, mas nem por isso o nobre e valoroso saxão aceitava a ideia de se render sem combate.
Robin era a alma do pequeno exército. Supervisionava os trabalhos, incentivava os camponeses, fabricava armas, estava por todo lugar. A aldeia de Gamwell, antes tão calma e tranquila, passou a um cotidiano cheio de animação e vida, tendo o terror cedido vez ao entusiasmo, e aqueles pacíficos aldeãos se mostravam briosos e felizes de entrar em luta aberta contra os normandos.
Terminados todos os preparativos para o combate, uma espécie de torpor se abateu sobre Gamwell. Era como se a calma, que os clamores bélicos haviam sacudido, tivesse voltado aos tranquilos habitantes. Mas era o tipo de silêncio que toma conta da natureza pouco antes da tempestade. O olho se mantém inquieto, o ouvido atento e espera-se com ansiedade a deflagração do raio.
O inimigo manteve essa expectativa por dez dias. Um dos batedores postados na floresta finalmente veio anunciar a aproximação de uma tropa montada.
A notícia voou de boca em boca, o sino espalhou o aviso e os camponeses se lançaram como se fossem um só homem aos diferentes postos previamente indicados. Protegidos atrás da muralha das barricadas, permaneceram mudos, de arma preparada, atentos, a seguir com o olhar o avanço rápido do inimigo.
Sem ver ninguém, sem ouvir barulho algum que pudesse revelar uma tentativa de defesa, o chefe dos soldados de Henrique II esfregava as mãos, satisfeito, imaginando que surpreenderia os moradores de Gamwell. Esse comandante, porém, conhecendo o temperamento dos saxões e sabendo por experiência própria serem eles valentes e sempre dispostos à luta, havia previsto encontrar obstáculos no caminho. O silêncio reinante na planície, no entanto, era auspicioso e ele acreditava poder chegar de improviso.
A tropa normanda se compunha de cerca de cinquenta homens e os aldeãos eram uma centena. A força desses últimos, como se vê, era superior à do inimigo e, além disso, estavam em ótima posição.
Ainda convencido de que cairia sobre o vilarejo como uma ave de rapina que mergulha sobre um passarinho, o chefe normando ordenou a seus homens que apressassem a marcha dos cavalos. Foi obedecido e, num passo rápido, em pouco tempo subiram a colina.
Mal chegaram ao alto, uma revoada de flechas, dardos e pedras se abateu sobre eles. A surpresa foi tão grande que uma segunda rodada de flechas os atingiu antes mesmo que esboçassem qualquer reação.
A queda de três ou quatro soldados mortalmente feridos arrancou dos normandos um grito de indignação. Só então perceberam as barricadas e se lançaram sobre a primeira delas, numa carga furiosa.
Valentemente recebidos e rechaçados pelos saxões, invisíveis em seus esconderijos, os militares compreenderam que teriam que lutar bravamente. Conseguiram tomar a primeira barreira, mas por trás desta havia uma segunda e, em seguida, foram ainda impedidos de avançar pela terceira. Já haviam perdido vários homens e, frustrantemente, sequer conseguiam ver se estavam abatendo alguns inimigos. Os saxões, que em sua maioria eram arqueiros experimentados, nunca erravam o alvo e suas flechas semeavam destruição no núcleo do pequeno exército.
Os soldados se desesperavam sem poder se pôr frente a frente ao inimigo e começavam a se ressentir disso. O comandante percebeu murmúrios de desânimo e ordenou que se operasse um falso recuo, com o intuito de levar os normandos a deixar os esconderijos. A estratégia foi imediatamente executada: os normandos fingiram bater ordenadamente em retirada e já se encontravam a certa distância das barricadas quando um grito anunciou a aparição dos vassalos de sir Guy. Sem interromper a marcha da sua tropa, o chefe normando olhou para trás.
Os aldeãos corriam em tumulto, perseguindo de forma aparentemente desordenada o inimigo.
— Não se virem, rapazes — gritou o comandante. — Deixem que se aproximem. Vamos pegá-los! Estejam atentos! Estejam atentos!
Animados pela expectativa de uma boa desforra, os soldados continuaram a se afastar.
De repente, porém, para surpresa normanda, os saxões, em vez de tentarem ganhar em velocidade os soldados, pararam junto à primeira barreira, da qual tinham sido expulsos, e de lá enviaram, com incomparável eficiência, uma saraivada de flechas contra os fujões.
Exasperado, o chefe ordenou meia-volta a seus homens e, com um salto furioso de seu cavalo, partiu à frente da pequena tropa.
Nova chuva de flechas, lançadas por mãos seguras, caiu sobre o infeliz normando. Ele balançou na sela e, sem proferir um ai, caiu como massa inerte às patas do cavalo que, também ferido, pulou de lado e tombou morto a poucos passos do cadáver do seu dono.
Já abatidos pelo fracasso dos seus esforços, os soldados se sentiram completamente desmoralizados diante daquela nova desgraça. Recolheram o corpo do chefe e, sem perder tempo para contar as perdas ou ajudar os feridos, se afastaram do campo de batalha tão depressa quanto podiam seus vigorosos cavalos.
Depois de festejar com gritos de alegria a fuga dos soldados, os camponeses trataram não de persegui-los, e sim de recolher os feridos e enterrar os mortos. Dezoito normandos haviam sucumbido na refrega, incluindo o comandante, carregado por seus homens.
Os bravos aldeãos estavam tão orgulhosos da vitória que já pensavam em chamar as mulheres de volta a Gamwell, mas João Pequeno claramente fez os ingênuos companheiros compreenderem que o rei não limitaria sua vingança àquele primeiro ataque e que deviam se preparar, e bem, para receber a visita de uma tropa ainda mais considerável.
Fiéis seguidores de sir Guy, os vassalos aceitaram os conselhos do jovem chefe e passaram a fortificar as barreiras e a fabricar novas armas. Sob o comando de João Pequeno, o hall foi abastecido com grande quantidade de víveres, prevenindo-se para suportar um verdadeiro cerco. Um reforço de cerca de trinta camponeses de fora, aliados e amigos dos senhores de Gamwell, se juntou à tropa da aldeia e, armados até os dentes e atentos, em constante defensiva, os bravos saxões aguardaram a vinda dos sanguinários normandos.
O mês de julho chegava ao fim e há quinze dias os aldeãos esperavam os perigosos visitantes. Imaginavam que o ataque se daria às primeiras horas da manhã, pois segundo toda probabilidade, os normandos chegariam cansados da marcha rápida naquela época quente do ano e teriam uma noite de repouso em Nottingham. Certo fim de tarde, dois moradores da aldeia que voltavam de Mansfield, onde tinham ido fazer compras, contaram aos amigos que uma tropa de cerca de trezentos soldados acabava de acampar em Nottingham, com o intuito de chegar descansada ao hall de Gamwell.
A notícia deixou todo mundo agitado, mas tal agitação logo cedeu lugar ao sentimento de vigilante entusiasmo.
No amanhecer do dia seguinte, reunidos ao redor de frei Tuck, os aldeãos acompanharam contritamente a missa e João Pequeno, depois de unir suas orações às do grupo, se colocou no meio deles e, com voz suave, mas firme, assim se exprimiu:
— Amigos, gostaria de dizer algo, antes de nos dirigirmos ao posto a que nos prende o dever, mas sou homem pouco letrado, pouco eloquente com palavras. Cada um tem seu talento específico e o meu consiste em manejar o bordão e ser bom arqueiro. Desculpem-me então se me exprimo mal, mas ouçam com atenção. O inimigo se aproxima, sejam prudentes e só deixem seus esconderijos em caso de absoluta necessidade. Se forem forçados a aceitar o corpo a corpo, sejam calmos, sem precipitação. Lembrem-se bem de que, se cometerem a infelicidade de perder a frieza, inevitavelmente deixarão de lado os cuidados mais importantes para a autodefesa. Saibam, amigos, que atitudes apressadas raramente são bem feitas. Disputem passo a passo cada polegada de terreno, ataquem sem raiva e não desperdicem os golpes, pois pagarão com a vida todo erro. Mostrem ao inimigo que cada linha do nosso solo natal vale a existência de um cão normando. Repito ainda uma vez, rapazes, sejam calmos, valentes e firmes; vendam caro aos soldados de Henrique as vantagens que o maior número e melhores armas podem lhes dar. Hurra por Gamwell e pela força saxã!
— Hurra! — gritaram com entusiasmo os que ouviam, empunhando com mão firme as armas e buscando ao longe, com brilho nos olhos, a aparição do inimigo.
— Amigos — gritou Robin, colocando-se no lugar que João Pequeno acabava de deixar —, lembrem-se de que lutam por seus lares, defendendo o teto que abriga suas mulheres e guarda o berço dos seus filhos, lembrem- se de que os normandos são os opressores que nos esmagam, tiranizam os fracos e só estendem a mão para queimar, matar ou destruir! Lembrem-se de que esta é a terra dos seus antepassados e que devem defendê-la. Lutem com coragem, rapazes, lutem enquanto houver um sopro de vida nos seus lábios!
— Lutaremos com bravura! — foi a resposta em uníssono.
Três horas depois do despontar do sol, o som de uma trompa anunciou a aproximação do inimigo. Os vigias da estrada voltaram a Gamwell e, assim como no ataque anterior, os defensores do hall ficaram invisíveis.
O corpo inimigo avançava lentamente e era fácil avaliar, pela passagem do grupo, que de fato se compunha de duzentos a trezentos homens.
Reuniram-se todos ao pé da colina que deviam subir para ter uma visão da cidadela e, após alguns minutos de conciliábulo, a tropa se dividiu em quatro partes. A primeira partiu a galope colina acima, a segunda desmontou e seguiu a pé os cavaleiros, a terceira deu a volta pelo lado esquerdo, com a quarta fazendo o mesmo pela direita.
Tal manobra fora prevista e pôde ser devidamente contrabalançada, pois defesas tinham sido construídas ao pé das árvores que cresciam no alto da colina. Os espaços entre elas fora preenchido com galhos e folhagem tão naturalmente entrelaçados que os soldados se alegraram, achando ter encontrado ali um abrigo em que poderiam se reagrupar, depois de alcançado o topo da elevação.
Ao se aproximarem dessas árvores supostamente protetoras, receberam uma saraivada de flechas que feriam homens e faziam os cavalos empinarem, semeando confusão. A tropa foi obrigada a descer mais rapidamente a colina do que havia subido.
Os homens enviados aos lados opostos foram recebidos de maneira igualmente desastrosa para eles. Decidiu-se, consequentemente, que o avanço, tornado impossível a cavalo, se faria a pé. As montarias foram abandonadas e, protegidos pelos escudos, os soldados decididamente tomaram os três caminhos designados pelo comando, enquanto uma parte da tropa, deixada como reserva, esperou embaixo o sucesso do primeiro ataque contra as barreiras.
Os normandos rapidamente chegaram à primeira delas que, com sete pés de altura, apresentava a distâncias regulares seteiras para o envio das flechas. Em vez de perder um tempo precioso atacando o inimigo protegido em seu abrigo, eles resolveram escalar a muralha.
Os aldeãos não tentaram opor uma resistência que seria inútil e simplesmente se retiraram para a segunda barreira. Empolgados com esse primeiro sucesso, os normandos se precipitaram em polvorosa atrás deles e atacaram a nova barricada com indescritível furor. Por um momento, os dois lados lutaram quase corpo a corpo, com a batalha prestes a se tornar sangrenta, quando um sinal foi dado e os saxões recuaram para o abrigo da terceira barreira.
Essa retirada fez os normandos se darem conta de que, o tempo todo, iam perdendo o terreno que haviam conquistado.
O capitão reuniu seus homens para combinar um novo plano de ataque e, ouvindo a opinião dos comandados, ao mesmo tempo observava em volta.
Gamwell se situava no centro de uma vasta planície e a colina que, de certa maneira, lhe servia de muralha, se revelava um caminho ao mesmo tempo impraticável para os cavalos e perigoso para os homens.
Ele perguntou se algum dos presentes conhecia a localidade.
Correndo de boca em boca, a pergunta acabou levando até o capitão um camponês que dizia conhecer a aldeia de Gamwell, por ter um parente morando ali.
— Você é saxão? — espantou-se o comandante, franzindo o cenho.
— De modo algum, capitão, sou normando.
— E o seu parente é aliado dos rebeldes?
— De fato, pois é saxão.
— Nesse caso, como são parentes?
— Ele é casado com minha cunhada.
— E você conhece a aldeia?
— Conheço sim.
— Pode levar meus homens a Gamwell por um caminho que não seja este?
— Posso. Embaixo da colina há uma trilha que vai diretamente ao hall de Gamwell.
— Ao hall de Gamwell? Onde fica?
— Ali, à sua esquerda, capitão. Aquela construção grande, cercada de árvores. É onde mora sir Guy.
— O velho rebelde que atacamos? Com os diabos! O rei Henrique poderia ter dado tarefa mais fácil do que essa de tirar o velho cão saxão do seu canil. Agora, me diga, posso mesmo confiar em você?
— Pode sim, capitão. E se seguir minhas indicações, verá que não menti.
— Assim espero, pelo bem das suas orelhas — disse o oficial em tom ameaçador.
— Fui quem os guiou até aqui — lembrou o homem.
— Pode ser, tudo bem. E por que não mencionou antes esse caminho?
— Porque os saxões teriam percebido esse movimento da tropa e tomado precauções para interromper o avanço. Um punhado de homens decididos consegue defender essa trilha contra mil invasores.
— E a trilha se situa, pelo que disse, na base da colina? — quis ainda confirmar o chefe.
— Isso mesmo, capitão, à beira da floresta.
Satisfeitíssimo com as informações, o comandante ordenou que uma parte da tropa se dispusesse a seguir o guia, enquanto ele mesmo, procurando chamar a atenção dos saxões para outro ponto, começaria novo ataque.
Mas os planos do capitão iriam por água abaixo.
O cunhado do guia, que realmente estava entre os defensores de sir Guy, reconheceu o parente e foi avisar João Pequeno, mostrando a espécie de conciliábulo que se travava entre o homem e o capitão.
João Pequeno imediatamente pressentiu a traição e chamou três dezenas de homens que, sob o comando de um dos seus primos, foram vigiar o caminho ameaçado de invasão.
Depois disso, pediu que chamassem Robin:
— Amigo, conseguiria atingir com seu arco qualquer objeto na colina?
— Acredito que sim — respondeu o arqueiro com modéstia.
— Isso significa que tem certeza — corrigiu João. — Ótimo! Siga meu olhar. Está vendo aquele homem à esquerda do soldado com um vistoso penacho no capacete? O indivíduo, meu amigo, é um patife e estou convencido de que passa ao comandante indicações de acesso a Gamwell pelo caminho da floresta. Trate então de liquidar o miserável.
— Agora mesmo.
Robin estendeu o arco e, dois segundos depois, o homem apontado por João Pequeno se contorceu de dor, deu um grito e caiu para não mais se levantar.
O chefe normando rapidamente juntou seus homens e decidiu tomar de assalto as barreiras.
Os saxões se defenderam com bravura; inferiores, porém, em número, não puderam impedir o avanço e ordenadamente se retiraram na direção de Gamwell.
Vencidas as barreiras, os normandos facilmente ganharam terreno. Penetraram na aldeia e uma espécie de pânico tomou conta dos camponeses. Já se preparavam para fugir, quando uma voz poderosa gritou a plenos pulmões:
— Saxões, parem! Sigam-me os que tiverem brio. Em frente! Em frente!
Essa voz, que era a de João Pequeno, reanimou as forças periclitantes dos aldeãos apavorados. Eles se voltaram e, envergonhados da fraqueza demonstrada, seguiram o chefe.
Este último se lançou como um leão contra um militar grandalhão, que parecia dividir com o chefe principal o comando da tropa e, pela violência dos golpes que distribuía, causava pavor em volta.
Ao ver João Pequeno avançar em sua direção, dobrando como se fossem frágeis caniços os soldados que tentavam se opor à sua passagem, o homem em questão armou-se de um machado e partiu para o confronto.
— Até que enfim nos encontramos, lenhador! — gritou o homem, que outro não era senão Geoffroy. — Vou me vingar de uma só vez de todo o mal que me causou.
João Pequeno fez pouco da ameaça, e quando Geoffroy girou o machado para abatê-lo sobre a sua cabeça, com a rapidez de um raio ele o arrancou das suas mãos e arremessou a vinte passos de distância.
— Patife miserável, bem que merece a morte, mas mais uma vez tenho pena de você. Defenda a sua vida — disse João Pequeno.
Os dois homens ou, melhor dizendo, os dois gigantes — pois Geoffroy o Forte, lembrem-se, tinha também um tamanho descomunal — começaram o terrível combate. O confronto foi de longa duração e a vitória, incerta por algum tempo, se decidiu bruscamente a favor do saxão que, concentrando todo o vigor num supremo esforço, acertou um golpe de espada no ombro de Geoffroy que lhe abriu o corpo até a espinha dorsal.
O vencido caiu sem um ai e os dois campos inimigos, que haviam assistido em silêncio ao estranho combate, olhavam com espanto e horror o terrível ferimento produzido pelo golpe mortal.
João Pequeno não parou diante do corpo do inimigo; ergueu com mão firme, acima da cabeça, a espada ensanguentada e atravessou a hoste normanda como um deus da guerra, da devastação e da morte.
Chegando a um ponto mais elevado, ele olhou para trás e viu que, cercados pelo inimigo, os vassalos, apesar da coragem, não conseguiam mais se defender.
Imediatamente fez então soar a trompa, dando ordem de retirada. Em seguida, voltando ao corpo a corpo, abriu passagem para os seus homens. A fulminante espada manteve por alguns minutos os soldados à distância e os saxões, sabendo quais eram as intenções do chefe, se retiraram pouco a pouco para o pátio do hall. Reunidos num só grupo, e lutando de forma desesperada, conseguiram chegar ao recinto do castelo, já em estado de resistir aos ataques de um cerco.
Lançaram-se os normandos contra as portas, de machado em punho, mas elas, em carvalho maciço, resistiram. Puseram-se então a observar ao redor da ampla construção, esperando descobrir alguma entrada pouco protegida, mas essa busca, de infrutífera que era, revelou-se também perigosa, pois os saxões lançavam do alto das janelas pedras enormes e torrentes de flechas.
O capitão normando, assustado com as perdas que os projéteis lançados causavam entre os seus homens, chamou-os de volta e, depois de deixar uma centena deles ao redor do hall, desceu ao vilarejo. Como sabemos, as casas de Gamwell estavam vazias. Os soldados, autorizados pelo comandante, revistaram todas, mas para sua grande decepção, as encontraram não somente desertas, mas também sem mantimentos nem objetos que valessem o saque.
Contando apenas com os recursos necessários para uma vitória rápida, a tropa logo se viu numa penúria de víveres. Queixas e reclamações começaram a circular. Uma dúzia de homens com fama de bons caçadores foi enviada à floresta para tentar abater alguns gamos. Com o sucesso da empreitada, os famintos se satisfizeram e o capitão, que estabelecera seu acampamento na aldeia, deixou que metade da tropa descansasse, enquanto a outra metade preparava armas para um ataque noturno contra o edifício dos saxões.
Em situação mais confortável que o inimigo, os camponeses fizeram uma excelente refeição e dormiram, depois de contar as baixas e cuidar dos feridos.
Ao cair da noite, uma forte claridade anunciou aos saxões a nova manobra do inimigo: a aldeia estava em chamas.
— Está vendo, João Pequeno — disse Robin, mostrando ao amigo a lúgubre iluminação —, os miseráveis incendeiam sem pena as modestas casas dos nossos camponeses.
— E farão o mesmo com o hall, meu amigo — respondeu João Pequeno com tristeza. — Temos que nos preparar para enfrentar essa nova miséria. A velha morada é cercada de bosques, arderá como um monte de feno.
— Com que tranquilidade diz isso! — revoltou-se Robin. — Não acha possível evitar essa odiosa afronta?
— Faremos tudo que estiver ao nosso alcance, Robin, mas não se iluda, o fogo é um inimigo difícil de ser vencido.
— Veja, outra moradia queimada; estarão dispostos a pôr fogo na aldeia inteira?
— Chegou a ter alguma dúvida, meu pobre amigo? Sim, destruirão nossa querida Gamwell e, terminando a obra lá embaixo, tentarão trazer as chamas para cá também.
Indignados, os camponeses assistiam ao espetáculo com gritos de desespero. Queriam deixar o hall e satisfazer ali mesmo o amargo desejo de vingança que lhes devorava o coração, mas João Pequeno, avisado por um dos primos, rapidamente foi até eles e pediu, emocionado:
— Compreendo a revolta de vocês, caros amigos, mas, por favor, esperem ainda! Se conseguirmos nos defender até o amanhecer, venceremos. Esperem, esperem, dentro de quinze minutos os miseráveis vão estar aqui.
— Estão chegando! — interrompeu Robin.
De fato, os normandos avançavam para o castelo aos brados, com tochas acesas nas mãos.
— A seus postos, rapazes, a seus postos! — gritou de novo o sobrinho de sir Guy. —
Apontem suas flechas com atenção, mirem com capricho e nada desperdicem. E você, Robin, fique comigo para enviar a morte a quem eu indicar.
Os normandos cercaram o castelo e, mesmo mantendo distância das janelas e barbacãs, lançaram contra a porta tochas incendiárias, mas que logo se apagavam sem causar danos, sob as torrentes de água lançadas pelos camponeses.
O fogo foi suspenso e uma espécie de alegre clamor dos soldados levou João Pequeno e Robin a uma janela.
Com o chefe à frente, uma dezena de soldados arrastava um instrumento que, aparentemente, devia servir para derrubar a porta. No momento em que, sob a direção do capitão, os normandos iam instalar o aparelho em seu devido lugar, João Pequeno disse a Robin:
— Crave uma flecha nesse maldito capitão.
— Com prazer, mas será difícil atingi-lo mortalmente, já que uma cota de malha o protege. Vou precisar apontar para o rosto.
— Atenção — disse João —, prepare o arco… atire, Robin, atire, o rosto está bem iluminado por uma tocha. Essa morte vai nos salvar.
Robin, que seguia os movimentos do chefe, disparou. A flecha partiu. O capitão, atingido entre as duas sobrancelhas, caiu para trás. Em polvorosa, os soldados acorreram ao redor e uma tremenda desordem tomou conta das fileiras.
— Agora, saxões! — gritou João com voz vibrante. — Uma saraivada de flechas contra os incendiários.
A nuvem mortal que se abateu foi tão esmagadora que os soldados que se mantiveram de pé se sentiram perdidos. Preparavam-se para fugir, quando um normando, se colocando por conta própria à frente dos companheiros, propôs que fizessem um último esforço para obrigar os camponeses a deixar a fortaleza. Havia um grupo de árvores, principalmente pinheiros, bem diante da fachada interna do castelo, ou seja, dando para os jardins. Sob o comando do novo chefe, as árvores mais próximas do edifício tiveram o tronco serrado pela metade, com os galhos mais altos tendo sido previamente inflamados. João Pequeno, que observava angustiado os rápidos progressos da infernal destruição, deixou escapar um grito de raiva e disse a Robin:
— Encontraram como nos obrigar a sair. As árvores vão incendiar o telhado e em pouco tempo o castelo estará em chamas. Derrube os que carregam tochas, Robin, e vocês, amigos, não economizem flechas. Abaixo os lobos normandos! Morte aos lobos!
Os pinheiros, árvores que rapidamente ardem, caíram sobre o telhado com barulho assustador e uma claridade avermelhada logo envolveu a cúpula do castelo.
João Pequeno reuniu seus homens no salão principal, dividiu-os em três grupos, se colocou com Robin à frente do primeiro, deu a frei Tuck o comando do segundo, confiando o terceiro à direção do velho Lincoln, e cada grupo se preparou para deixar o hall por uma porta diferente.
Sir Guy havia assistido impassivelmente aos preparativos da partida, mas quando o sobrinho foi pedir que deixasse a sala com ele, o velho baronete exclamou:
— Quero morrer nas ruínas da minha casa.
Em vão João Pequeno, Robin e os jovens Gamwell suplicaram, em vão mostraram as chamas rubras que tingiam a sala com sangrenta iluminação, em vão lembraram a esposa e as filhas; o velho saxão permaneceu surdo aos pedidos, insensível às lágrimas.
— Cuidado! Corram! — gritou de repente Robin Hood. — O teto vai cair.
João Pequeno agarrou o tio, ergueu-o e, apesar das reclamações e lamentos, levou-o para fora da sala.
Mal os saxões saíram, ouviram um estrondo sinistro: os andares superiores, sobrecarregados com a queda do telhado, sucessivamente desabaram e a velha moradia senhorial lançou por suas aberturas línguas de fogo e vagas de fumaça.
João Pequeno deixou sir Guy aos cuidados de alguns homens de confiança e mandou que tomassem imediatamente a estrada para Yorkshire.
Com o espírito mais tranquilo, o incansável João Pequeno ergueu novamente sua triunfante espada e partiu contra o inimigo aos gritos:
— Vitória! Vitória! Peçam clemência! Implorem misericórdia!
O surgimento de Tuck, vestido com batina de frade, lançou pânico entre os normandos: nenhum deles se atrevia a ir contra um membro da santa Igreja e, tomados por súbito pavor, fugiram, perseguidos pelos saxões, correndo para o local em que estavam amarrados os cavalos. Rapidamente se puseram em sela e se afastaram a toda velocidade. Dos trezentos normandos que haviam chegado pela manhã, restavam apenas setenta. Embriagados com a vitória, os aldeãos cercaram João Pequeno que, depois de coordenar a triagem dos feridos e mortos, discursou:
— Saxões! Vocês deram hoje prova de estar à altura desse nobre nome. Infelizmente, apesar da nossa valentia, os normandos alcançaram o que queriam. Queimaram suas casas e fizeram de vocês pobres banidos. A permanência aqui se torna impossível, pois logo nova tropa de soldados tomará conta dessas ruínas. Precisam então se afastar daqui. Resta-nos um lugar de salvação: a floresta, que nos oferece asilo. Quem de nós não dormiu, quando criança, na relva macia do bosque, sob o teto ondulante das verdes folhas e das grandes árvores?
— Para a floresta, vamos para a floresta! — gritaram várias vozes.
— Isso mesmo, vamos para a floresta — repetiu João Pequeno. — Viveremos em comunidade, trabalharemos uns para os outros, mas para que a felicidade se consolide em constante harmonia, precisamos nomear um chefe.
— Um chefe? Que seja então você, João Pequeno.
— Um hurra para João Pequeno! — responderam os vassalos em uníssono.
— Amigos — voltou ele a falar —, agradeço infinitamente a honra que me fazem, mas não posso aceitar. Permitam que apresente agora mesmo quem é digno de estar à frente de vocês.
— Quem é? Onde está?
— Aqui mesmo — disse João, descansando a mão no ombro de Robin Hood. — Ele, Robin Hood, meus amigos, é um verdadeiro saxão e, além disso, um bravo. Tem a discrição e o bom senso de um ancião. Têm em Robin Hood o conde de Huntingdon, descendente de Waltheof, filho bem- amado da Inglaterra. Os normandos, que lhe roubaram os bens, reivindicam ainda seus títulos de nobreza, e o rei Henrique proscreveu Robin Hood. Agora, amigos, respondam: querem ter como chefe o sobrinho de sir Guy de Gamwell, o nobre Robin Hood?
— Queremos! Queremos! — exclamaram os camponeses, lisonjeados por ter como chefe o conde de Huntingdon.
O coração de Robin dava saltos de alegria, seus planos secretos tinham finalmente uma esperança de realização. Sentia-se orgulhoso e, diga-se, digno de cumprir a difícil missão para a qual o apontava o seu bom amigo. Depois de passar pelos saxões um olhar fulgurante, ele tirou o gorro e, com a mão apoiada no braço de João Pequeno, disse emocionado:
— Companheiros, fico feliz que me aceitem como chefe e agradeço do fundo do coração. Estejam certos de que farei tudo que puder para merecer a estima e amizade de vocês. Minha pouca idade54 poderia ser um motivo de receio e desconfiança, se eu não dissesse que a maneira de pensar que tenho, meus sentimentos e ações são de alguém que sofreu e, com isso, ganhou a experiência de um homem feito. Terão em mim um irmão, um companheiro, um amigo e um chefe, em caso de absoluta necessidade. Conheço bem a floresta, nossa futura morada, e me comprometo a encontrar um abrigo seguro para vocês e a tornar a existência de todos feliz e agradável. O segredo desse lugar a que me refiro não deve nunca ser confiado a ninguém; seremos nossos próprios guardiões e serão indispensáveis a discrição e a prudência. Preparem-se para a viagem, vou levá-los a um retiro inacessível aos inimigos. Mais uma vez, irmãos saxões, agradeço a confiança e tudo farei para merecê-la, solidário nas horas de tristeza e nas de alegria.
Os preparativos foram rápidos, pois os normandos nada haviam deixado para os infelizes proscritos.
Três horas depois, Robin Hood e João Pequeno, acompanhados pelos aldeãos, penetraram num espaçoso subterrâneo no meio da floresta. Esse lugar, perfeitamente seco, tinha no teto amplas aberturas que permitiam a livre circulação do ar e da luz por toda a sua extensão.
— Puxa, Robin! — espantou-se João Pequeno. — Eu, que conheço o bosque tão bem quanto você, estou maravilhado com a descoberta. Como é possível que a floresta de Sherwood tenha um local tão confortável?
— É provável que tenha sido aberto por foragidos saxões, na época de Guilherme I.
Poucos dias depois da mudança dos nossos amigos para a floresta de Sherwood, dois homens do bando, que tinham ido fazer compras em Mansfield, contaram a Robin que uma tropa de quinhentos normandos acabava de demolir, pois nada mais podiam fazer, as muralhas da hospitaleira casa que havia sido o hall de Gamwell.
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