As Aventuras de Robin Hood Capítulo 08
Havíamos deixado Robin na capela, escondido atrás de uma pilastra, e ele se perguntava qual feliz conjunto de circunstâncias havia ajudado
Allan a escapar da cela.
— Provavelmente foi Maude, a tão desprendida Maude que vem pregando essas peças ao barão — ele concluiu. — E por Deus! Se continuar a abrir para nós todas as portas do castelo, prometo que lhe darei um milhão de beijos.
— Mais uma vez, Christabel querida — dizia Allan, levando aos lábios as mãos da jovem —, tenho a felicidade, após dois anos de separação, de esquecer a seu lado tudo que sofri.
— Sofreu tanto assim, Allan? — perguntou Christabel ligeiramente incrédula.
— Tem dúvida quanto a isso? Um sofrimento enorme, e desde que fui expulso do castelo do seu pai minha vida tem sido um inferno. Deixei Nottingham naquele dia caminhando de costas, para não perder de vista a echarpe que você agitava do alto da muralha, se despedindo. Cheguei a achar que era para sempre, pois tinha a impressão de que não sobreviveria à dor. Mas Deus teve pena de mim e me fez chorar como uma criança que perdeu a mãe. Chorei e isso me ajudou.
— Allan, o céu é testemunha de que se estivesse em minhas mãos fazer a sua felicidade, você seria feliz.
— Então um dia serei feliz — exclamou o rapaz com entusiasmo. — Deus há de ouvi-la.
— E tem sido fiel? — perguntou Christabel, interrompendo-o com ingenuidade. — Jura que sempre será?
— Em pensamento, palavras e atos. Sempre fui, sou e serei.
— Obrigada, Allan! A confiança que tenho em você me sustenta no isolamento em que vivo. Devo obediência às vontades do meu pai, mas a uma delas nunca me submeterei, e ele pode ainda nos separar, como já fez, mas nunca me fazer amar outro além de você.
Pela primeira vez na vida, Robin ouvia a linguagem do amor; compreendia-a por intuição, acompanhava a felicidade daquelas palavras e pensava, suspirando:
— Ah, se a bela Marian falasse comigo assim!
— Como conseguiu descobrir em que cela eu me encontrava, Christabel? Quem abriu aquela porta? Quem conseguiu para mim esse hábito de frade? No escuro nem pude identificar quem me salvou. Apenas me disseram: “Siga para a capela.”
— Há uma única pessoa em quem, no castelo, posso confiar, uma jovem tão boa quanto inventiva, Maude, minha camareira. Devemos a sua fuga a ela.
— Tinha certeza — murmurou Robin.
— Quando meu pai jogou-o na prisão, depois de tão brutalmente nos separar, Maude, aflita com meu desespero, disse: “Não se preocupe, milady, logo vai estar com o sr. Allan.” E cumpriu o prometido, a pequena Maude, vindo me avisar, ainda há pouco, que o esperasse aqui. Acho que o carcereiro que o vigiava se deixou levar pelas manhas femininas e se embriagou com canções, vinho e olhares, até dormir como uma pedra. Ela então pegou as chaves. Por feliz coincidência, seu confessor se encontrava no castelo e o santo homem não se negou a emprestar a própria batina. Não conheço esse venerável servidor de Deus, mas quero ser apresentada para agradecer a paternal ajuda que deu.
— De fato, muito paternal — disse consigo mesmo Robin, que continuava atrás da pilastra.
— Não se chama frei Tuck, esse amigo? — quis confirmar Allan.
— É o nome dele. Conhece-o?
— Um pouco — sorriu o rapaz.
— Certamente um frade idoso e bondoso — acrescentou Christabel. — Mas por que riu, Allan? O bom homem não merece nossa veneração?
— Não digo o contrário, querida.
— Então por que o riso? Quero saber.
— Nada muito importante, querida. Mas esse bom e idoso frade não é tão velho como imagina.
— E por que isso o fez rir? Na verdade, pouco importa, velho ou moço, gosto dele e tenho a impressão de que Maude também. Nada tenho contra, mas não seria bom que gostasse tanto dele quanto Maude.
— O que está querendo dizer? — ameaçou zangar-se Christabel.
— Desculpe, meu amor, é só uma brincadeira que você mais tarde vai entender, quando agradecermos o frade pela ajuda.
— Está bem. Mas não falou ainda de minha amiga, Marian, sua irmã. Pelo menos dela posso gostar sem que você nada tenha contra, não é?
— Marian nos espera na casa do honesto guarda-florestal de Sherwood. Deixou Huntingdon para viver conosco, pois achei que seu pai me concederia a sua mão. Em vez disso, não contente de negar, atentou contra minha liberdade, para provavelmente atentar em seguida contra a minha vida. Resta-nos então uma única alternativa para a felicidade: a fuga…
— Não posso, Allan, nunca vou poder abandonar meu pai!
— Ficará furioso com você, não podendo se vingar em mim. Temos tudo para ser felizes, Marian, você e eu, isolados do mundo. Onde quiser viver, Christabel, na floresta ou na cidade, em qualquer lugar. Venha, não quero deixar esse inferno sem você!
Desolada, a jovem chorava escondendo o rosto nas mãos e dizendo apenas: “Não! Não!”, toda vez que Allan mencionava a fuga como solução.
Ah, como Allan Clare gostaria, naquele momento, de publicamente denunciar os crimes do barão Fitz-Alwine e reduzir a nada o orgulhoso e despótico personagem!
Enquanto o jovem gentleman e Christabel, abraçados, falavam de suas dores e esperanças, Robin, que pela primeira vez presenciava uma cena de verdadeiro amor, sentia-se ingressar num mundo desconhecido.
De repente, porém, a mesma porta pela qual haviam entrado na capela foi aberta sem muito barulho e Maude, segurando uma tocha, surgiu, seguida por frei Tuck, despido do seu hábito.
— Ai, ai, ai, minha ama! — exclamou Maude nervosa. — Estamos perdidos! Vamos morrer, será um massacre geral! Ai, ai, ai!
— O que está dizendo, Maude? — assustou-se Christabel.
— Vamos morrer, é o que estou dizendo! O barão está pondo tudo a ferro e a fogo! Não deixará escapar nenhum de nós! Ai! Morrer tão moça, é horrível! Não, mil vezes não, milady. Não quero morrer!
A doce criatura tremia e realmente chorava, mas logo voltaria a sorrir.
— O que significa todo esse palavrório e lágrimas? — reclamou Allan. — Está louca? E você, mestre Tuck, pode dizer o que está acontecendo?
— Impossível, amigo cavaleiro — respondeu o frade em tom não tão sério. — O que posso dizer se resume ao seguinte: estava eu sentado… ou melhor, de joelhos…
— Sentado — interrompeu Maude.
— De joelhos — discordou Tuck.
— Sentado — repetiu Maude.
— De joelhos, estou dizendo! Estava de joelhos… fazendo minhas preces.
— Bebendo cerveja — interrompeu de novo, incriminadoramente, Maude. — Tinha inclusive bebido muito.
— Obediência e delicadeza são qualidades notáveis, filha. E tenho impressão de que vem se esquecendo delas.
— Sem máximas morais e, sobretudo, sem discussões — interrompeu Allan. — Apenas expliquem essa chegada repentina e qual perigo nos ameaça.
— Interrogue então o reverendo — disse Maude balançando a bonita cabeça com ares melindrados. — Foi a ele que se dirigiu ainda há pouco o sr. cavaleiro, é justo que seja ele a responder.
— Está perversamente nos aterrorizando, Maude — reclamou Christabel. — Diga qual perigo corremos, por favor. É uma ordem!
A jovem camareira ficou ruborizada e finalmente explicou, se aproximando de sua ama:
— Vou contar, milady. Como sabe, fiz Egbert, o carcereiro, beber mais vinho do que era capaz de aguentar e ele acabou dormindo. Durante o pesado sono da bebedeira, ele foi chamado por milorde, que queria visitar seu… o sr. Allan. O pobre guarda, ainda sob a influência do vinho, esqueceu- se do respeito que se deve à Sua Senhoria e foi, de mãos nos quadris, de maneira nada reverenciosa, perguntar como se atrevia a perturbar em pleno sono um bravo e honesto rapaz como ele. Isso surpreendeu tanto o barão que ele por uns instantes não respondeu a estranha pergunta, limitando-se a olhar para Egbert, que, empolgando-se, foi até ele e perguntou, como se falasse a um companheiro: “Diz aí, destroço da Palestina, como vai a saúde? Tomara que a gota o deixe dormir em paz essa noite…” Milady sabe que Sua Senhoria já não se encontrava de bom humor, pode então imaginar como ficou ao ouvir e ver os gestos de Egbert… Ah, milady! Se estivesse lá, ficaria apavorada como eu, prevendo sangrenta catástrofe. Ele espumava de raiva, rugia mais forte do que um leão ferido, fazendo tremer o chão, procurando qualquer coisa para esmagar com as próprias mãos. De repente, arrancou o molho de chaves da cintura de Egbert e foi justamente procurar logo a da cela de seu… quer dizer, do sr.cavaleiro, que não estava lá. “Onde está?”, perguntou com voz de trovão. Ouvindo isso, Egbert num segundo ficou completamente sóbrio, branco de medo. Monsenhor nem tinha mais forças para gritar, mas uma tremedeira convulsiva, de cima a baixo, deixava claro que pretendia se vingar. Pediu um esquadrão de soldados, mandou que o levassem à cela do prisioneiro, avisando que se este lá não se encontrasse, Egbert seria enforcado… Senhor — acrescentou Maude, virando-se para Allan —, precisa fugir correndo, fugir antes que meu pai, informado de tudo isso, feche as portas do castelo e não desça mais a ponte levadiça.
— Corra, Allan, depressa! — assustou-se Christabel. — Vamos estar para sempre separados se meu pai nos encontrar juntos.
— Mas e você, Christabel, e você? — perguntou ele em desespero.
— Fico e tentarei acalmá-lo.
— Nesse caso, também fico.
— Não, vá agora mesmo, pelo amor de Deus! Se me ama, fuja… Voltaremos a nos ver.
— Jura que voltaremos a nos ver, Christabel?
— Juro.
— Então obedeço.
— Logo estaremos juntos, vá!
— Acompanhe-me, sr. cavaleiro, assim como nosso venerável frade — atalhou Maude.
— Acha que o seu pai nos deixará sair do castelo? — perguntou Tuck.
— Se não souber ainda do que aconteceu. Vamos, não temos tempo a perder.
— Mas éramos três quando entramos — disse o frade.
— É verdade. E Robin?
— Presente! — mostrou-se ele, saindo do esconderijo.
Christabel se assustou e deu um grito, enquanto Maude ficou tão satisfeita que o frade percebeu, nada contente.
— Muito bem! — disse a filha do velho Lindsay com um sorriso e um afago no braço de Robin. — Escapou de uma cela guardada por duas sentinelas!
— Também estava preso? — surpreendeu-se Allan.
— Conto quando já estivermos longe daqui. Vamos logo… Imagino que preze a vida… até mais do que eu — acrescentou triste —, tem uma irmã e outras pessoas que lamentarão a sua morte, enquanto eu… Vamos aproveitar a ajuda de Maude. Essas muralhas do castelo de Nottingham já são um peso no meu peito. Vamos!
Ouvindo essas palavras, Maude olhou-o de forma no mínimo dúbia. Ouviram-se passos no corredor de acesso à capela.
— Que Deus tenha piedade de nós! — exclamou Maude. — Em nome do céu, fujam!
Despindo rapidamente o hábito, Allan devolveu-o a frei Tuck e se precipitou até Christabel para um último adeus.
— Por aqui, cavaleiro! — gritou firme Maude, abrindo outra das portas de saída.
Allan deu o mais ardente dos beijos em Christabel e atendeu ao chamado.
— Que são Bento a proteja, minha amiga! — disse o frade, tentando por sua vez beijar Maude.
— Impertinente! Vamos, passe logo! — esquivou-se ela.
Robin, por sua vez, achando-se já perito em galanteria, inclinou-se à frente de Christabel e respeitosamente beijou a sua mão, dizendo:
— Que seja a Virgem o seu apoio, consolo e guia!
— Obrigada — respondeu a moça, espantada em ver tão bons modos num simples rapazinho plebeu.
— Enquanto os ajudo a fugir, milady, finja estar rezando, alheia a tudo. Não deixe que o barão perceba que sabe por que está tão furioso — disse Maude.
Mal a porta se fechou, o barão irrompeu na capela, à frente dos soldados armados.
Mas voltaremos logo mais a isso e vamos por agora continuar com nossos três amigos e a gentil Maude, que se tornara o anjo da guarda deles.
O pequeno grupo percorreu uma longa e estreita galeria, avançando na seguinte ordem: Maude à frente e carregando uma tocha, Robin logo atrás, com frei Tuck quase ao lado e Allan fechando a marcha.
A jovem apressava o passo, tanto para manter certa distância entre Robin e ela quanto para chegar o quanto antes ao portão do castelo. Não ria mais e se mantinha calada, afastando com a mão que restava livre a de Robin, que tentava em vão apanhar no ar algumas pregas da sua saia esvoaçante.
— Está zangada comigo? — perguntou ele em tom súplice.
— Estou — foi a resposta lacônica.
— O que fiz de errado?
— Nada.
— O que disse, então?
— Não insista, isso não deve nem tem por que interessá-lo.
— Mas me incomoda.
— Não faz mal. Logo vai se consolar, quando estiver bem longe do castelo de Nottingham, com muralhas que tanto pesam no seu peito.
— Ah, entendi! — e acrescentou: — Posso estar cansado do barão, das muralhas do castelo e dos seus calabouços, mas não da sua encantadora companhia, dos seus sorrisos e graciosas palavras, querida Maude.
— Jura? — rapidamente entusiasmou-se ela, voltando um pouco a cabeça.
— É a mais pura verdade, Maude querida.
— Então façamos a paz… — e aceitou um beijo do jovem arqueiro.
Toda essa conversa acabou provocando uma diminuição no ritmo de marcha dos fugitivos. Frei Tuck, irritando-se mais ainda ao ouvir o beijo, reclamou com impaciência:
— Ei! Andem mais rápido… Qual é o nosso caminho? Pois tinham chegado a um entroncamento de corredores.
— O da direita — respondeu Maude.
Vinte passos adiante, estavam todos na cabina do porteiro. Ela chamou o pai.
— Como assim? — surpreendeu-se o velho Lindsay que, felizmente, nada sabia dos acontecimentos da noite. — Já estão indo embora, antes do amanhecer? Veja só, irmão Tuck! E eu que contava fazer ainda um brinde antes de dormir. Precisam mesmo ir embora esta noite?
— Precisamos sim, meu filho — respondeu Tuck.
— Que assim seja, amigo Gilles. E os senhores também, cavalheiros, até a próxima!
A ponte foi descida. Allan foi o primeiro a se ver fora do castelo, seguido pelo frade, depois de uma última tentativa junto à jovem que, dessa vez, sequer permitiu o dom da sua “bênção”, isto é, um beijo, mas se aproveitou do descuido do seu mentor espiritual para ardentemente beijar a mão de Robin.
O beijo o agitou profundamente, dos pés à cabeça.
— Nos veremos em breve, não é? — sugeriu Maude em voz baixa.
— Assim espero — respondeu ele. — Enquanto isso, por favor, pegue meu arco no quarto do barão, e também as flechas. Entregue a quem vier pedi-los da minha parte.
— Venha pessoalmente.
— Combinado. Virei. Até lá, Maude.
— Até, Robin, até lá!
Os soluços que abafaram a sua voz não nos deixaram saber se igualmente se despediu de Allan e Tuck.
Os fugitivos desceram rapidamente a colina, atravessaram a cidade sem perder tempo e só diminuíram o ritmo já sob a sombra protetora da floresta de Sherwood.
-
Na Literaz, a leitura gratuita é possível graças à exibição de anúncios.
-
Ao continuar lendo, você apoia os autores e a literatura independente.
-
Obrigado por fazer parte dessa jornada!